Brasília Amapá Roraima Ceará Pará |
Manaus
34º
Web Stories Streamline Icon: https://streamlinehq.com CM7 Shorts
Brasília Amapá Roraima Ceará Pará CM7 Play

Escândalo: Após anúncio de Roberto Cidade, SSP transfere R$ 22,6 milhões a empresa Logic Pro

Compartilhe
Escândalo: Após anúncio de Roberto Cidade, SSP transfere R$ 22,6 milhões a empresa Logic Pro

Amazonas – Em abril de 2026, ao assumir interinamente o Governo do Amazonas, Roberto Cidade divulgou nota oficial anunciando a suspensão imediata e o cancelamento dos contratos entre o Estado e empresas vinculadas à sua família. O motivo declarado era evitar questionamentos sobre moralidade administrativa e conflito de interesses.

Os registros do Portal da Transparência Fiscal contam outra história. Antes da posse, a SSP havia pago R$ 522 mil à Logic Pro no exercício. Depois do anúncio, pagou R$ 22,67 milhões.

O dinheiro que andou depois do anúncio

A consulta de pagamentos da SSP à Logic Pro no exercício de 2026, extraída em 12 de agosto, soma R$ 23,19 milhões pagos no ano. Há ainda R$ 1,79 milhão referente a exercícios anteriores.

Até 25 de fevereiro, antes da posse, foram pagos R$ 522.462,98, só 2,3% do total do ano. A partir de 17 de abril, já depois da posse e do anúncio, foram R$ 22.671.783,23, ou 97,7%.

Só no dia 24 de abril, uma semana depois do anúncio, saíram R$ 9.796.498,87 em seis ordens bancárias. Isso é 42,2% de tudo o que foi pago no ano.

Quatro desses pagamentos somam R$ 6,68 milhões e foram lançados no elemento de despesa 3.3.90.92, o de Despesas de Exercícios Anteriores. É a rubrica usada para quitar obrigações que não foram processadas na época própria. A natureza exata de cada lançamento ainda precisa ser confirmada junto à Sefaz.

No mesmo 24 de abril foi quitada a nota de empenho 2025NE0000879. Ela foi emitida em junho de 2025, três dias antes de o contrato das viaturas sequer ser assinado.

A análise dos documentos públicos não localizou nenhum ato administrativo que tenha formalizado a suspensão anunciada. Também não apareceram a lista dos contratos atingidos nem novas licitações para substituir as empresas.

O governo pode alegar que a Logic Pro não é empresa da família, já que a nota citava a Navegação Cidade e a R R Serviços. Mas a Logic Pro é consorciada da Navegação Cidade, e o CNPJ do consórcio registra o endereço e o e-mail da empresa da família. Muda o CNPJ que recebe; o contrato que origina o pagamento é o mesmo.

Vale registrar também que o contrato estava em vigência até 16 de junho de 2026, e parte desses valores pode corresponder a serviços prestados. Isso torna ainda mais necessário saber o que, afinal, foi suspenso.

Um aluguel que paga o carro duas vezes

O contrato assinado em 16 de junho de 2025 aluga cem viaturas Chevrolet Spin com sistema de monitoramento. Quem informou quanto vale cada carro foi a própria contratada: R$ 145 mil, na planilha de formação de preços entregue com a proposta.

O aluguel mensal de cada veículo, sem a tecnologia, é de R$ 12.700. Em doze meses, são R$ 152.400, ou 105% do preço do carro zero. O contrato prevê troca da frota a cada 24 meses. Ao fim desse prazo, o Estado terá pago R$ 304.800 por viatura, o equivalente a dois carros, e devolve o bem.

Nas cem viaturas, comprar custaria R$ 14,5 milhões. Só o primeiro ano de aluguel custa R$ 15,24 milhões. Seguro, IPVA e manutenção já estão dentro desse valor, segundo a mesma planilha.

O pacote de monitoramento é cobrado à parte, a R$ 4.950 por mês por carro. Dentro dele está um celular Motorola Moto G75, aparelho de linha intermediária vendido em qualquer loja. Ele custa R$ 680 por mês, o que dá R$ 816 mil por ano nas cem viaturas.

A planilha tem ainda erros que deveriam ter sido barrados na análise:

– Um “banco de couro (se possuir)” é cobrado como custo certo, somando R$ 275 mil por ano.
– O compartimento para preso custa mais na minivan (R$ 21.181) do que na pick-up S10, veículo maior (R$ 18.250).
– A Spin, uma minivan, aparece descrita como “veículo tipo pick-up”.
– A isenção de ISS cita uma lei municipal sem dizer de qual município.

Um consórcio criado 14 dias antes do contrato

O Consórcio Cidade–Logic Pro foi inscrito na Receita Federal em 2 de junho de 2025. O contrato foi assinado em 16 de junho. O cartão do CNPJ traz o endereço da Navegação Cidade em Manicoré e o e-mail nc_cidade@hotmail.com. A atividade secundária registrada é monitoramento de sistemas de segurança eletrônica, exatamente o objeto do lote de tecnologia.

A contratação nasceu de uma Ata de Registro de Preços assinada em março de 2025, e nela a Navegação Cidade aparece sozinha. A lei permite formalizar o consórcio depois da licitação, desde que haja compromisso prévio. A pergunta que fica é outra: uma empresa de navegação fluvial tinha, na época do certame, qualificação técnica para instalar reconhecimento facial e leitura de placas em viaturas da polícia?

A cronologia segue estranha. As notas de empenho foram emitidas em 13 de junho, três dias antes da assinatura. Dezoito dias depois de assinar, a contratada avisou que não conseguiria entregar as viaturas no prazo, sem citar nenhum fato novo. A SSP prorrogou o prazo até 20 de outubro sem exigir comprovante de pedido à montadora.

De zero a R$ 43,7 milhões na Segurança Pública

Em 2020, a Logic Pro não recebeu nada da SSP. Tudo o que faturou do Estado naquele ano somou R$ 516 mil, vindos de outros órgãos.

Em 2021, a SSP aparece pela primeira vez, já com R$ 7,7 milhões. Em 2023, foram R$ 31,2 milhões, e a Segurança Pública passou a responder por 98,8% de tudo o que a empresa recebia do Estado. Em 2025, o valor chegou a R$ 43,7 milhões.

O salto coincide com os mandatos de Cidade na presidência da Assembleia Legislativa. A coincidência está documentada; o mecanismo, não. A Assembleia não ordena despesas da SSP, e é isso que precisa ser apurado.

Há outro registro. A Logic Pro passou a declarar sede na Rua Belo Horizonte, em Adrianópolis, mesmo logradouro e CEP do Centro de Serviços Compartilhados. É esse órgão que homologa as atas de preços que beneficiaram o grupo.

O caso está no Ministério Público

Em 23 de junho de 2026, o vereador Coronel Rosses protocolou na Procuradoria-Geral de Justiça do Amazonas representação por improbidade administrativa. Os alvos são Roberto Cidade Filho, o ex-secretário de Segurança Marcus Vinicius Oliveira de Almeida, o secretário Coronel Anézio Brito de Paiva, a Navegação Cidade e a R R Serviços de Transporte e Navegação.

A peça reúne contratos do mesmo grupo em dez órgãos estaduais. Ela questiona como uma só estrutura empresarial presta, ao mesmo tempo, transporte escolar fluvial, locação de tratores, transporte de contêineres para presídios e tecnologia de monitoramento policial. A representação também registra não ter encontrado os atos formais de suspensão dos contratos.

Todos os valores citados constam de documentos públicos: a planilha da contratada, o Contrato nº 021/2025-SSP, o Parecer nº 562/2025-ASJUR, o Portal de Contratos e Aditamentos, o Portal da Transparência Fiscal e registros da Receita Federal. O espaço está aberto para manifestação do governador e das empresas citadas.

Veja documentos

Nucleo_Cidade_Limpo-2


Siga-nos no Google News Portal CM7

Banner Rodrigo Colchões Abaixo do Post

Portal CM7Portal CM7Portal CM7
Carregar mais