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‘Vorcaro do Amazonas’: com ajuda de ex-secretário da SEDUC-AM, dono da empresa Fazer Educação faturou bilhões em vários Estados do Brasil

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‘Vorcaro do Amazonas’: com ajuda de ex-secretário da SEDUC-AM, dono da empresa Fazer Educação faturou bilhões em vários Estados do Brasil

Manaus – O que começou como uma modesta operação de tecnologia educacional na capital amazonense transformou-se, em menos de cinco anos, em um império financeiro que hoje drena recursos vultosos de diversos estados brasileiros. Um levantamento do Intercept Brasil, baseado em documentos fiscais, relatórios de pagamento e registros de inteligência policial, revela como a empresa Fazer Educação LTDA (anteriormente operando sob o nome Sudu Inteligência Educacional) construiu um caminho bilionário sob a sombra de parcerias políticas estratégicas, notadamente com o atual secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares.

Embora poucos conheçam o rosto do empresário João Moacir Pereira da Silva Filho, seus CNPJs tornaram-se amplamente conhecidos e frequentes entre os maiores contratos com governos ao redor do Brasil. A face discreta do “Vorcaro do Amazonas”, como é chamado nos bastidores, contrasta com a onipresença de suas empresas em processos licitatórios de grande vulto, que agora estão sob o radar de órgãos de controle e da Polícia Federal.

O Salto para o Bilhão: A Soma dos Contratos

A magnitude do faturamento do grupo impressiona até mesmo investigadores veteranos. Ao consolidar os dados extraídos de relatórios da Secretaria de Fazenda do Amazonas (SEFAZ-AM) e contratos públicos em outras unidades da federação, o montante movimentado pela empresa beira a marca histórica de R$ 1 bilhão.

No Amazonas, entre os anos de 2021 e 2025, a empresa já havia garantido o recebimento de R$ 84.953.108,16. Esse valor foi distribuído principalmente pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEDUC-AM), com passagens pela agência reguladora ARSEPAM. No entanto, o verdadeiro salto ocorreu em escala nacional: contratos firmados em Minas Gerais e no Pará somam outros R$ 848,8 milhões. O total consolidado de R$ 933,7 milhões coloca a Fazer Educação em um patamar de faturamento raramente visto para empresas do setor sediadas na Região Norte.

O “Efeito Carona” e a Conexão Rossieli Soares

A engenharia financeira para alcançar tais cifras baseia-se no polêmico mecanismo administrativo da “adesão à ata de registro de preços”, conhecido no serviço público como “carona”. Esse modelo permite que um Estado utilize uma licitação já realizada por outro órgão, agilizando a contratação e, muitas vezes, reduzindo o rigor da fiscalização local sobre a real necessidade do gasto.

As digitais de Rossieli Soares, ex-secretário de Educação do Amazonas, aparecem de forma recorrente nos contratos mais vultosos da empresa. Em Minas Gerais, sob sua gestão, a Fazer Educação garantiu um contrato de R$ 348,4 milhões assinado na antevéspera do Natal de 2024. Estratégia similar foi adotada no Pará, onde Rossieli também comandou a pasta da Educação. A relação ganha contornos ainda mais sensíveis quando se observa o financiamento eleitoral: em 2022, Rossieli recebeu doações de Mario Ghio Jr., então presidente da Somos Educação — gigante do setor que produz os livros que a Fazer Educação revende como “representante exclusiva” aos governos.

Sedes em Manaus e o Fantasma da “Ghost Mask”

Apesar do faturamento de alcance nacional, o coração da operação permanece em Manaus. A Fazer Educação mantém sua estrutura na Rua Domingos Lima, 236, bairro Nossa Senhora das Graças. O endereço abriga tanto a matriz quanto a filial aberta recentemente, em dezembro de 2024.

O histórico do CNPJ matriz (34.049.028/0001-35) carrega manchas pesadas. Foi sob esse registro que a empresa, então denominada Sudu, tornou-se alvo da Operação Ghost Mask da Polícia Federal em 1º de outubro de 2024. As investigações federais miravam irregularidades que agora parecem se repetir em outras esferas. Além disso, o proprietário do grupo, o empresário João Moacir Pereira da Silva Filho, foi indiciado pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul em abril de 2025, acusado de fraude em licitação e organização criminosa na Operação Capa Dura.

A Ramificação dos Negócios: Holdings e Bancos

A investigação aponta que o faturamento vindo da educação foi o trampolim para uma expansão agressiva de João Moacir em outros setores. Em maio de 2025, o empresário registrou a 3MA Participações LTDA em Manaus, com foco em consultoria, gestão empresarial e holdings. A rede de negócios também inclui o Myone Bank (J. M. P. da S. Filho LTDA), demonstrando que o grupo buscou verticalizar suas operações financeiras.

Com ramificações em São Paulo e no Paraná (através da E.ducar Editora), o grupo amazonense consolidou uma estrutura que hoje desafia os órgãos de controle. Em Minas Gerais, a deputada Beatriz Cerqueira (PT) já acionou o Ministério Público Federal questionando a qualidade do material entregue e a real necessidade de gastos tão elevados, especialmente diante da existência do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que fornece livros gratuitamente aos estados.

Enquanto Rossieli Soares e a Fazer Educação negam qualquer irregularidade, afirmando que as contratações seguiram todos os trâmites legais, a sombra de quase R$ 1 bilhão em contratos paira sobre as gestões educacionais, colocando o Amazonas novamente no mapa das grandes investigações sobre o uso de recursos públicos.


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