Herança de Wilson Lima e Roberto Cidade: próximo governo herdará bilhões em empréstimos e delegacias abandonadas no Amazonas
Amazonas – Quem assumir o Governo do Amazonas em janeiro de 2027, caso Roberto Cidade (União Brasil) não seja reeleito, receberá um Estado marcado por mais de R$ 17 bilhões em operações de empréstimos acumuladas durante a gestão de Wilson Lima (União Brasil) — compromissos que atravessam mandatos e terão reflexos nas contas públicas dos próximos anos.
Levantamento publicado em dezembro de 2025 apontou que, desde 2023, Wilson Lima havia comprometido o Amazonas com aproximadamente R$ 17,631 bilhões em empréstimos, considerando operações em reais e financiamentos internacionais convertidos para a moeda brasileira. Somente durante o segundo mandato, foram encaminhados 12 pedidos de financiamento à Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM).
Mas Wilson Lima não construiu sozinho esse caminho de endividamento
Os pedidos precisavam passar justamente pela Assembleia Legislativa, que durante esse período era comandada por Roberto Cidade, então presidente da Casa e fiel aliado de Wilson Lima. Foi sob a presidência de Cidade que os deputados estaduais analisaram e aprovaram sucessivas autorizações para o governo contratar empréstimos bilionários.
Na prática, enquanto Wilson Lima solicitava dinheiro emprestado em nome do Estado, a Assembleia comandada por Cidade dava o aval legislativo necessário para que essas operações avançassem.
Entre elas estão empréstimos milionários e bilionários contratados junto a bancos nacionais e organismos internacionais para supostos programas de infraestrutura, saneamento, habitação, educação, modernização administrativa e outras áreas.
O resultado dessa sequência é uma conta que não termina junto com o mandato de quem contratou os recursos. Empréstimos possuem parcelas, juros e cronogramas de pagamento que avançam por vários anos, fazendo com que governos futuros continuem responsáveis pelos compromissos assumidos pelas administrações anteriores.
De presidente da ALEAM a governador
A mudança ocorreu após Wilson Lima e o vice-governador Tadeu de Souza (Progressistas) renunciarem aos cargos para disputar as eleições de 2026. Como presidente da Assembleia, Roberto Cidade assumiu interinamente o Governo do Amazonas em 5 de abril de 2026.
Com a vacância simultânea dos cargos de governador e vice na segunda metade do mandato, coube à Assembleia realizar uma eleição indireta.
Em 4 de maio de 2026, os próprios deputados estaduais elegeram Roberto Cidade governador do Amazonas. Ele recebeu os 24 votos da Assembleia, tendo Serafim Corrêa (PSB) escolhido como vice, e tomou posse no mesmo dia para completar o mandato até janeiro de 2027.
Cidade, portanto, saiu da presidência do Poder Legislativo que aprovou boa parte das operações de crédito solicitadas por Wilson Lima para assumir o comando do Executivo responsável por administrar os efeitos dessas decisões.
Mais de R$ 17 bilhões em empréstimos, mas problemas básicos continuaram no interior
O volume de dinheiro envolvido nas operações contrasta com problemas históricos que permaneceram visíveis em áreas essenciais do Estado.
Um dos exemplos está na Segurança Pública. Enquanto bilhões de reais em empréstimos passavam pela Assembleia Legislativa, delegacias do interior continuavam enfrentando problemas de infraestrutura, falta de pessoal, equipamentos insuficientes e condições precárias de funcionamento.
Fiscalizações realizadas pelo Ministério Público do Amazonas em Delegacias Interativas de Polícia revelaram situações envolvendo infiltrações, rachaduras, instalações deterioradas, problemas em carceragens e condições inadequadas para servidores e presos.
Em diversas cidades do interior, a precariedade das unidades policiais também afeta diretamente quem depende do serviço público. Há municípios em que o atendimento presencial das delegacias não funciona integralmente durante a noite, fins de semana e feriados, deixando ocorrências dependentes de regimes de plantão ou sobreaviso.
É nesse cenário que a eleição de 2026 ganha também uma dimensão financeira
Se Roberto Cidade não conquistar um novo mandato, o próximo governador receberá não apenas os problemas acumulados da máquina pública, mas também os compromissos decorrentes de mais de R$ 17 bilhões em empréstimos realizados durante a gestão Wilson Lima e autorizados, em grande parte, pela Assembleia Legislativa no período em que Cidade presidia a Casa.
A troca de governador pode acontecer em janeiro. A conta dos empréstimos, porém, continuará com o Amazonas.



