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Diretor do Banco Central confessa: créditos fantasmas do banco Master ficaram invisíveis por meses

Diretor do Banco Central confessa: créditos fantasmas do banco Master ficaram invisíveis por meses

Brasil – O escândalo envolvendo o Banco Master, que culminou na liquidação extrajudicial da instituição em novembro de 2025, revelou uma surpreendente lacuna na supervisão do Banco Central. Em depoimento prestado à Polícia Federal no final de dezembro do ano passado, o diretor de Fiscalização da autarquia, Ailton de Aquino, afirmou que a “certeza” sobre a existência de uma indústria de créditos fraudulentos só veio em junho de 2025 – após uma reunião com executivos de duas empresas pequenas –, apesar de suspeitas no mercado desde o final de 2024 e indícios detectados pela própria autoridade monetária desde o início daquele ano.

O caso ganhou contornos dramáticos quando o BRB (Banco de Brasília), instituição controlada pelo governo distrital, anunciou em março de 2025 a aquisição de ativos do Master. Na época, o negócio era visto como uma solução para os problemas de liquidez do banco privado. No entanto, segundo Aquino, o Banco Central só obteve clareza sobre as fraudes meses depois, e a liquidação definitiva ocorreu apenas em 18 de novembro.

No interrogatório gravado – realizado na sede do Supremo Tribunal Federal por decisão do ministro Dias Toffoli, que acelerou o acesso ao material –, o diretor explicou que a crise de liquidez do Master era evidente: a instituição não cumpria adequadamente os depósitos compulsórios exigidos pelo BC, uma obrigação que funciona como reserva obrigatória sobre os recursos captados. Apesar disso, a carteira de crédito do banco continuava crescendo de forma acelerada, sem lastro real aparente.

O ponto de virada, segundo Aquino, ocorreu em 27 de junho de 2025, durante uma reunião que contou com sua presença, do diretor de Regulação Gilneu Vivan e do diretor de Organização do Sistema Financeiro Renato Gomes. Do outro lado, participaram André Felipe de Oliveira Seixas Maia (sócio da Tirreno), Henrique Souza e Silva Peretto (diretor-presidente da Cartos), Fabiano Antonio da Costa e Yim Kyu Lee (diretores da Cartos).

Durante mais de uma hora, os representantes do BC pressionaram sobre o volume de créditos “gerados” pela Tirreno e repassados ao Master – e, posteriormente, cedidos ao BRB. Após insistência, André teria admitido que o montante superava R$ 6 bilhões. Para Aquino, isso era “impossível”, dada a irrelevância da empresa no sistema financeiro.

A autoridade monetária constatou que a Tirreno tinha como único relacionamento relevante o Banco Master, iniciado em maio de 2025. Não havia registros de transferências via TED, Pix ou câmbio, nem operações no SCR (Sistema de Informações de Créditos) que justificassem tal volume. Em teste prático, o BC selecionou 30 CPFs aleatórios da suposta carteira da Tirreno e contatou os titulares: nenhum havia recebido qualquer empréstimo. A amostra indicou 100% de irregularidade.

Empresas como The Pay, Tirreno e Cartos foram citadas como centrais na operação fraudulenta. Aquino mencionou alertas prévios em 20 de março, 20 de dezembro e 26 de dezembro (provavelmente de anos anteriores ou contextuais), mas não detalhou por que esses sinais não geraram ação imediata. Os “reports” diários enviados pelo Master ao BC – mecanismo de reporte obrigatório – também não detectaram as anomalias, segundo o diretor.

Questionado sobre precedentes, Aquino comparou o caso ao do Banco Cruzeiro do Sul, liquidado em 2012 com rombo de pouco mais de R$ 3 bilhões. No Master, porém, as estimativas apontam para prejuízos muito maiores, potencialmente o maior da história bancária brasileira, com impacto bilionário no Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

O depoimento de Aquino ocorreu na condição de testemunha, ao lado do procurador-geral do BC, Cristiano Cozer. Já o fundador do Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foram ouvidos como investigados. A PF não aprofundou, no trecho transcrito, questões cruciais como o motivo pelo qual o BC não identificou as carteiras fictícias antes da negociação com o BRB ou como o Master conseguiu ocultar as práticas por tanto tempo.

Auditorias independentes (PwC, KPMG, EY e Crowe) haviam dado aprovação aos balanços do Master e da Reag (fundo também liquidado), o que levanta dúvidas sobre a eficácia dos controles externos e internos. O BRB alega ter reportado diariamente as operações ao BC após questionamentos da autarquia.

O caso Master expõe fragilidades na fiscalização proativa do sistema financeiro brasileiro. Enquanto o mercado já murmurava sobre a insustentabilidade do modelo do banco desde 2024, a autoridade reguladora demorou meses para agir de forma decisiva – mesmo após indícios claros. A investigação da PF, agora com depoimentos sob sigilo parcialmente levantado, segue em curso para esclarecer responsabilidades e dimensionar o rombo final. O episódio serve de alerta: em um sistema que depende de confiança, a demora na detecção de fraudes pode custar caro a investidores, ao FGC e à estabilidade financeira como um todo.


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