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Economia mergulha em incerteza inédita após divulgação de gravações

SÃO PAULO, RIO E BRASÍLIA – A reação da já combalida economia às gravações envolvendo a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suposto crime de obstrução de Justiça será a paralisia total. Diante da incerteza que alcançou o mais alto grau ontem, economistas afirmam que tudo vai parar: ninguém compra nada, empresário não investe na expectativa do que acontecerá a partir de hoje. Além das gravações comprometedoras, a indefinição de qual política econômica o agora ministro Lula vai adotar traz mais incerteza. Não se sabe se o governo vai tentar forçar o crescimento, por meio do estímulo ao consumo, ou se será mais conservador ao indicar a volta ao governo de Henrique Meirelles, que, em 2003, não titubeou em subir os juros básicos de 22% para 26,5% ao ano para combater uma inflação que passava de dois dígitos.

— Nesse contexto de Lula ministro, vazamento de gravações, a economia fica parada, e as coisas tendem a piorar. Essa situação toda tem uma carga muito negativa, matando no nascedouro qualquer expectativa de melhora, seja no campo inflacionário, seja na área fiscal. É praticamente impossível uma recuperação das expectativas nesse contexto. E, sem isso, a economia não anda — afirmou Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central.

A crise política tomou de vez o assento da crise econômica, diz o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) Armando Castelar:

— Até então, a crise econômica vinha dominando o processo. A preocupação com a questão fiscal, com a inflação e os impactos na crise política. Chegou-se a anunciar a reforma da Previdência. Agora, a política tomou o assento da economia, o que é mais paralisante ainda. Principalmente porque temos opções de amplo espectro: de muito intervencionista a Henrique Meirelles, mais conservador. Ninguem sabe exatamente o que vai acontecer. O momento é de não se comprometer.

A presidente Dilma veio a público ontem comentar a indicação de Lula para o ministério e, em entrevista coletiva, afirmou que não haveria mudanças bruscas na política econômica. Dilma destacou que Lula, quando foi presidente, defendeu o ajuste fiscal.

Segundo Loyola, apesar dessa garantia da presidente Dilma, o que se vê é a tendência de o governo voltar a dar crédito via bancos públicos para tentar reativar a economia:

— Essa é uma política perdedora e aloprada. O governo acabou e luta para não ser enterrado. É um governo zumbi.

No mercado financeiro, analistas afirmam que a tomada de posição ficou mais difícil do que nunca. Mas a contundência das gravações faz especialistas apostarem em reação positiva dos investidores em um primeiro momento, antecipando mudança de governo após a divulgação das conversas.

— Uma parte do mercado pode interpretar que estamos vivendo os estertores de um governo, o que é positivo do ponto de vista dos investidores — afirmou Maurício Pedrosa, estrategista da Queluz Asset Management. — Mas o mercado odeia incerteza, e sempre põe isso nos preços. E não existe quadro maior de incerteza que este, estamos sendo surpreendidos a cada meia hora.

Embora admita ser difícil traçar o day-after, Arnaldo Curvello, diretor de Gestão de Recursos da Ativa Investimentos, também aposta em reação positiva por parte dos investidores:

— O mercado vai embutir nos preços um cenário sem Dilma, o que significa Bolsa em alta.

Curvello observa que o ritmo de virada de expectativas é inédito:

— Com as notícias da semana passada, o mercado antecipou saída rápida do governo, e os preços subiram. Com a história de que Lula viraria ministro, o mercado desfez posições. Agora, esse tipo de notícia de hoje (ontem) é muito difícil de precificar. É muito “nunca antes na história desse país”.

PARALELO COM AFASTAMENTO DE COLLOR

Margarida Gurierrez, professora da Coppead/UFRJ, considera que a entrada de Lula no governo aumenta as incertezas. Para ela, a política econômica está descaracterizada e, com a volta do petista, essa condição se intensifica. Na avaliação da economista, até o governo de Fernando Collor de Mello tinha uma visão mais clara — embora equivocada — dos rumos para a política econômica:

— A política de Collor tinha uma consistência, embora tenha sido errado o confisco. Hoje, qual é a política econômica? Ninguém sabe.

Para o professor da PUC Luiz Roberto Cunha, o governo Dilma tentou blindar a economia ao nomear Joaquim Levy, um fiscalista. Mesma atitude que Collor tomou ao entrar no processo de impeachment. Nomeou Marcílio Marques Moreira para o Ministério da Economia e Francisco Gros para o Banco Central.

— Naquela época, conseguiu-se até acumular reservas. A Dilma tentou fazer isso com Levy, mas não deu certo. Mesmo que Lula tente a alternativa Meirelles, não funciona mais. A deterioração da economia é muito grave, muito maior.

Segundo Cunha, se a opção for estimular a economia, a dívida pública vai explodir:

— Vai ter fuga de capitais, inflação alta, e o país pode ser obrigado a impor controles de capital.

Para Margarida, a renúncia de Dilma abreviaria o processo de paralisia pelo qual passa o governo:

— Estaria encurtando esse período de muitas incertezas na política e, consequentemente, na economia. O vice, Michel Temer, provavelmente poria em prática o programa do PMDB que é estruturante, mais na linha ortodoxa, privilegiando o ajuste fiscal e as reformas. Não seria fácil, mas estaria abreviando os efeitos.

Fernando Marcato, sócio da GO Associados, discorda. Para ele, a nomeação de Lula pode interromper o marasmo no governo de forma menos traumática que um impeachment. O economista, que também é advogado, avalia que o vazamento da conversa de Lula com Dilma não traz problemas jurídicos e que, mesmo em meio à tensão política, é possível que Lula consiga aprovar reformas no Congresso para destravar a economia.

— Imagina o empresário que está sofrendo com o país afundando? Uma alternativa é passar por um longo processo de impeachment, a outra é trazer de volta um presidente que, no passado, criou pontes com a militância e o empresariado. Na cabeça do empresário, será que não vale a pena aguardar um pouco para ver se o Lula vai fazer isso?

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central, avalia que o cenário para a economia já está dado, diante da perspectiva de mais um ano de recessão. Lula pode ajudar na área fiscal, mas ainda é cedo para avaliar.

— Acho que se ele só entrar para apagar fogo, para sobreviver, não vai adiantar. Ele tem que fazer a política pensando na frente — afirmou.

Luis Otavio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, resume as incertezas em relação ao que esperar de Lula:

— Qual vai ser o Lula assumindo? Antes ou depois da Carta ao Povo Brasileiro? Fazer ilações sobre o comportamento dele é difícil. Ele tem um discurso ruim para o mercado e um histórico que é bom.

Em Brasília, horas antes de o juiz Sérgio Moro tornar públicos os grampos, Lula emitia sinais de que preparava uma mudança de rumo na política econômica. A ideia seria fazer uma aproximação do governo com sua base social e tentar salvar o mandato da presidente. Em reunião no Palácio da Alvorada com Dilma e o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, Lula cobrou medidas que ponham mais dinheiro nas mãos da baixa renda, gerem emprego e estimulem a economia. Essa é uma das demandas do PT, que alega precisar de apoio popular para conseguir conter o agravamento da crise política.

Momentos depois da reunião no Alvorada, em entrevista à imprensa, Dilma admitiu, pela primeira vez, a possibilidade de utilizar as reservas internacionais para abater a dívida bruta. Mas a presidente descartou o uso das reservas para investimentos.

— Nós jamais teremos uma pauta de uso dessas reservas para algo que não seja para a proteção do país contra flutuações internacionais. E as reservas também podem ter um papel em relação à dívida, mas elas não são a forma adequada de se solucionar questões de investimento.

Segundo interlocutores de Lula, o ex-presidente disse, durante a reunião, que o impeachment só deixará de ser um risco real se houver redução do desemprego. Para isso, portanto, o ajuste fiscal e a reforma da Previdência deveriam ficar em segundo plano. Barbosa, que vem sofrendo ataque do PT justamente por defender mudanças no regime de aposentadorias, fica no cargo por enquanto.

A forte especulação em torno de uma possível troca de Barbosa ou até mesmo do presidente do BC, Alexandre Tombini, com a chegada de Lula à Casa Civil, obrigou Dilma a ter de confirmar os dois nos cargos ontem:

— Eu quero só dizer para vocês que é outra especulação que não se admite, porque cria turbulência na economia. Nem o ministro Nelson Barbosa nem o ministro Tombini estão com alguma possibilidade de saírem do governo. Pelo contrário, eles estão mais dentro do que nunca.

Mas a especulação em torno da chegada de Meirelles irritou Tombini, que ventilou que poderia deixar o cargo. O presidente do BC tem confessado que anda cansado e pode pedir para sair na próxima reforma ministerial. Pessoas próximas a ele, contudo, afirmaram que o desabafo poderia ser uma cartada para permanecer na cadeira.


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