USP descaracteriza o Museu do Ipiranga e o transforma no “Museu da Lacração Nacional”; veja vídeo

Brasil – Após passar quase dez anos fechado para reformas , o Museu do Ipiranga, um dos mais importantes símbolos da Independência do Brasil, reabriu suas portas, mas frustrou quem buscava um resgate histórico fiel. Sob a administração da Universidade de São Paulo (USP) , o espaço que deveria evocar a formação nacional foi transformado no que o historiador Thomas Giulliano classifica como um verdadeiro “antimuseu”.
Em uma visita recente ao local, acompanhado da apresentadora Ana Ering, Giulliano destrinchou como a curadoria atual abandonou a preservação da memória para focar em uma desconstrução ideológica, utilizando narrativas anacrônicas que julgam o passado com as lentes do século XXI.
O Ataque ao Próprio Criador: Afonso Taunay
Um dos pontos mais críticos levantados pelo historiador é o desrespeito flagrante com Afonso Taunay, o grande responsável por idealizar e estruturar o acervo histórico do museu no início do século XX. Taunay dedicou sua vida a estudar os bandeirantes e o desenvolvimento de São Paulo.

A materialização desse desrespeito ganha contornos ainda mais nítidos através da obra de contestação intitulada “Fake Hero”, assinada pelo artista visual goiano Diogo Rustoff. Trata-se de um painel exibindo uma gravura onde uma estátua de um bandeirante está jogada diretamente em uma caçamba de lixo. Para os visitantes, deparar-se com uma imagem tão explícita dentro do próprio Museu do Ipiranga soa como um desrespeito inaceitável. Afinal, a instituição funciona graças ao pagamento de impostos da população, que agora está sendo utilizada para expor uma peça que ataca de forma tão visceral o legado dos bandeirantes e também incentiva a depredação e vandalismo de obras de artes e esculturas históricas.
Em vez de homenagear seu fundador, o museu exibe peças que beiram o escárnio, como uma gravura que mostra um bandeirante sendo jogado em uma caçamba de lixo. “Aqui nós temos um trabalho de criaturas defenestrando o seu criador”, aponta Giulliano, ressaltando o absurdo de utilizar uma estrutura pública para atacar o próprio idealizador do espaço, cujo nome sequer ganha o devido destaque nas salas.
A Complexidade Bandeirante Reduzida a “Invasores Europeus”
Historicamente, o bandeirante representa quase o “primeiro ethos do brasileiro”. Ao contrário da imagem caricata do europeu branco, rico e de olhos azuis, as bandeiras eram formadas majoritariamente por mamelucos, caboclos, indígenas e, em alguns casos, até mulheres. Suas condições eram frequentemente de extrema pobreza, algo comprovado em testamentos da época, onde itens básicos, como uma cadeira ou uma caneca, eram bens valiosos a serem distribuídos.

No entanto, o Museu do Ipiranga atual ignora essa complexidade sociológica e demográfica. A instituição optou por um reducionismo anacrônico, vilanizando figuras fundamentais para a expansão do território nacional — expansão essa que garantiu as fronteiras que temos hoje, argumento utilizado até mesmo pelo Barão do Rio Branco no século XX para garantir o Acre ao Brasil. A violência e as tensões da colonização sempre existiram e foram documentadas desde a Carta de Pero Vaz de Caminha até obras de Joaquim Manuel de Macedo, que foi professor de Dom Pedro II. Mas julgar os mamelucos do século XVII com a moralidade atual é, segundo Giulliano, “parcial, tanto quanto hipócrita”.
Textos de “Blog” e o Apagamento da Arte
A forma como o museu se comunica com o público também sofreu um rebaixamento intelectual. O excesso de didatismo ideológico resulta em painéis que se assemelham a “textos de blog”, subestimando a inteligência média do visitante e criando problematizações que não deveriam existir, ao mesmo tempo em que omitem os datalhes documentais e históricos pertinentes à compreensão do contexto da época.

Gigantes da pintura brasileira, como Victor Meirelles (autor de A Primeira Missa no Brasil) e Benedito Calixto, são tratados com descaso biográfico. Faltam informações estéticas e de história da arte sobre os quadros; sobram explicações sociológicas contemporâneas, muito forçadas, dizendo ao espectador como ele deve interpretar as obras. Pedro Américo, autor do icônico Independência ou Morte, cuja genialidade foi descoberta ainda na juventude pelo imperador Dom Pedro II, não recebe sequer o aprofundamento que sua trajetória exige.
Onde Estão os Construtores do Brasil?
Se o objetivo de um museu histórico é educar sobre os pilares da nação, o Ipiranga peca pela omissão. Os “construtores institucionais” do Brasil Província e Império, conforme definidos pelo historiador João Camilo de Oliveira Torres, são escanteados. Nomes essenciais como Diogo Antônio Feijó, José Clemente Pereira, Gonçalves Ledo e os irmãos Andrada (José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco) tornam-se meros coadjuvantes em meio a painéis de militância.
As mulheres históricas também sofrem um apagamento cruel. Em vez de celebrar a força real de figuras como Madre Paulina (que fez um vasto trabalho de caridade ao lado do museu), a Imperatriz Leopoldina, a Imperatriz Amélia, ou a Marquesa de Santos (reduzida injustamente apenas a “amante”), a curadoria prefere teorizar sobre papéis de gênero em cadeiras de balanço. O maior abolicionista do Brasil, o engenheiro negro André Rebouças, e a própria ala focada nas memórias da escravidão foram simplesmente retirados da exposição atual.
No fim das contas, o relato de um segurança do próprio museu, captado informalmente no encerramento da visita, resume a sensação de quem percorre os corredores esvaziados de rigor histórico do Ipiranga reaberto: “Dá uma olhada ali naquele painel… vocês vão entender o espírito da coisa”. O espírito atual, infelizmente, é o do escárnio contra a própria pátria.
Doutrinação, Gênero e o Duplo Padrão
Talvez a face mais explícita da instrumentalização do museu esteja nas exibições que fogem completamente ao escopo da Independência. Utilizando dinheiro de impostos, a curadoria investiu em exibições interativas infantis para promover fluidez de gênero contemporânea, sugerindo, por meio de quadros europeus antigos, que homens deveriam usar saias, ou problematizando a cor azul como símbolo masculino. “Isso aqui é a subversão da estrutura pública […]”, crava o professor.
O viés ideológico fica ainda mais gritante no tratamento dispensado às diferentes culturas. Enquanto a matriz africana é celebrada e exaltada no museu como símbolo de força e empoderamento, o que é válido, a história fundacional brasileira e seus bandeirantes são sistematicamente desconstruídos. É a ridicularização do legado nacional em prol da exaltação exclusiva do que vem de fora.







