Roberto Cidade promove evento na Aleam para homenagear a mãe e a esposa no dia das Mulheres
Manaus – O Dia Internacional da Mulher deveria ser um marco de luta e memória, mas na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), a data foi rebaixada a uma festa de família paga com o prestígio do dinheiro público. Nesta terça-feira (10), o parlamento amazonense realizou a entrega do Diploma Mulher Cidadã Amazonense 2026. O que se viu no plenário Ruy Araújo, no entanto, passou longe de ser uma celebração à mulher do povo: foi um desfile de elitismo, compadrio e nepotismo moral.
O presidente da Aleam, deputado Roberto Cidade (UB), discursou sobre o papel “fundamental” das mulheres e o reconhecimento de trajetórias que “impactam vidas”. A ironia atinge níveis estratosféricos quando observamos quem, de fato, impacta a vida do presidente da Casa: sua própria família.
Sem o menor pudor institucional, a Mesa Diretora — colegiado comandado pelo próprio Roberto Cidade — chancelou a homenagem à empresária Ângela Arruda Cidade, sua mãe. Não satisfeito em usar o parlamento para agraciar a genitora, o roteiro familiar se estendeu à sua esposa, Thaisa Coelho Cidade. Ela recebeu o diploma sob a pomposa alcunha de “primeira-dama do Poder Legislativo Estadual”, uma indicação oficializada pela Comissão da Mulher, da Família e da Pessoa Idosa
Transformar a maior honraria feminina do Legislativo Estadual em um presente de Dia das Mulheres para a própria mãe e a própria esposa não é apenas um escárnio com as verdadeiras lideranças sociais do Amazonas; é a prova de que, para Cidade, o Estado e a sala de estar da sua casa são basicamente a mesma coisa.
O feminismo de vitrine de Alessandra Campelo
Se a postura de Roberto Cidade é um monumento ao favorecimento íntimo, a da deputada Alessandra Campelo (Podemos) é a personificação da hipocrisia política. Como presidente da Comissão da Mulher, da Família e da Pessoa Idosa, Campelo encheu o plenário de palavras vazias sobre “protagonismo feminino” e “conquista de espaços”.
Mas que espaços são esses que a comissão de Campelo decidiu premiar? Foi justamente a comissão dela que assinou a indicação da esposa de Roberto Cidade para receber a medalha. Além disso, a comissão patrocinou uma verdadeira “bancada do matrimônio político”, entregando diplomas para as primeiras-damas de municípios como Autazes e Beruri.
Onde está a “relevância social, política e econômica” tão exaltada por Alessandra Campelo quando o mérito principal das agraciadas é o sobrenome ou o cargo do marido? O feminismo de conveniência da deputada serve apenas para carimbar os interesses da elite, aplaudindo mulheres cujo “protagonismo” não incomoda o status quo, mas o reforça.
Para a elite, o diploma; para as vítimas, o silêncio
O retrato mais cruel dessa sessão solene não é quem estava segurando os diplomas para as fotos, mas quem foi deliberadamente apagada. Num estado marcado por índices assustadores de violência doméstica, a Aleam não encontrou espaço para homenagear uma única mulher sobrevivente de uma tentativa de feminicídio ou vítima de abusos.
As cadeiras do plenário estavam ocupadas por reitoras de universidades particulares milionárias, como a pré-candidata ao Governo, Maria do Carmo Seffair, altas patentes da segurança e empresárias ricas. Claro, a polícia que investiga o crime foi aplaudida, mas a mulher comum que sobrevive ao crime foi esquecida.
O Diploma Mulher Cidadã de 2026 entra para os anais da Assembleia Legislativa como uma farsa elitista. Enquanto Roberto Cidade distribui honrarias públicas para a sua árvore genealógica e Alessandra Campelo faz discurso de palanque, a mulher amazonense real, aquela que não tem marido poderoso para lhe garantir uma medalha, continua sendo esquecida pelos deputados.


