Na Sombra do Poder: documentos oficiais expõem ligação direta entre PM preso por “Arrocho”, Wilson Lima e Roberto Cidade
Brasil – A prisão do 3º sargento da Polícia Militar Geovane da Silva Cruz, ocorrida em 22 de setembro de 2026, escancarou muito mais do que um esquema de “arrocho” no Porto de Manaus. Um mergulho nas publicações do Diário Oficial do Estado (DOE-AM) e do Tribunal de Contas (TCE-AM) revela que o agente, flagrado pelo Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) com cerca de 50 kg de drogas, armas e uma caminhonete de placa fria, esteve durante anos abrigado no centro do poder estadual.
Longe de ser um policial que patrulhava as ruas, Geovane construiu sua trajetória recente na Casa Militar, atuando ativamente na segurança pessoal do ex-governador Wilson Lima. As provas de sua ligação com o alto escalão não dependem de testemunhas, mas de registros públicos irrefutáveis assinados pelas maiores autoridades do Amazonas.
O “Homem de Confiança” na Estrada
Entre março de 2019 e setembro de 2024, portarias oficiais registraram pelo menos 23 missões do então cabo Geovane acompanhando Wilson Lima em viagens estratégicas pelo interior e também fora do estado. O objetivo documentado na maioria das diárias era claro: realizar “segurança e acompanhamento ao Exmo. Sr. Governador”. Ele integrou comitivas oficiais em Parintins, Itacoatiara, Manacapuru e diversas outras cidades, marcando presença em agendas chaves da gestão, como inaugurações de obras governamentais e entregas de benefícios sociais.


O reconhecimento pelo serviço prestado na segurança do ex-governador foi, inclusive, formalizado em papel. Em novembro de 2022, Wilson Lima assinou um decreto concedendo um elogio direto a Geovane e outros agentes pela atuação no 55º Festival de Parintins, destacando o trabalho de forma “leal, honrosa, dedicada e disciplinada”, honraria que foi direto para a ficha funcional do policial. Além do livre acesso ao mandatário, ele detinha o cargo comissionado de Gerente (símbolo AD-2) na estrutura da Casa Militar. Posteriormente, em 2023, o policial conquistou na Justiça sua promoção a 3º sargento, assinada pelo próprio governador com efeito retroativo.

Manobras Burocráticas e Privilégios
A transição governamental em 2026, com a posse de Roberto Cidade, não levou o sargento de volta ao policiamento ostensivo. Pelo contrário, os documentos revelam manobras administrativas inusitadas para mantê-lo fora da tropa e com benefícios adicionais.

Embora o novo governador o tenha exonerado do cargo de Gerente da Casa Militar a partir de 1º de junho de 2026, um decreto posterior, assinado no fim de julho, oficializou a cessão de Geovane ao Tribunal de Contas do Estado. O detalhe que salta aos olhos é a data retroativa estipulada pelo governo: a cessão passou a valer a contar de 15 de maio. Na prática, os registros provam que, por pelo menos 15 dias, o PM esteve oficialmente sobreposto em dois lugares: como gerente da Casa Militar e como servidor cedido ao TCE.
O ápice dos privilégios ocorreu às vésperas de sua prisão. Em agosto de 2026, já abrigado no Tribunal de Contas sob ônus da Polícia Militar, Geovane foi agraciado com duas bonificações extras pagas pelo próprio TCE-AM, válidas a partir do dia 4 daquele mês: a Gratificação de Trabalho Administrativo Militar (GTAM) e a Gratificação de Função Militar (GFM).
Pouco mais de um mês depois de garantir os vencimentos extras em sua nova função administrativa, o sargento e seus comparsas de farda foram interceptados pelo DRCO. O caso levanta questionamentos incômodos sobre os critérios de filtragem do Estado: como um policial que hoje é investigado por extorquir traficantes e tomar cargas clandestinas de drogas passou mais de sete anos atuando na sombra das principais lideranças políticas do Amazonas? Os Diários Oficiais documentam o trânsito livre; agora, resta à investigação policial explicar o resto da história.
Veja documentos na íntegra:




