Mestre e aprendiz: Igreja vende frango, oficina fornece colchões e loja de bebidas vende redes, custando milhões ao Governo do Amazonas

Manaus – O Estado do Amazonas parece estar preso em um ciclo contínuo de escândalos administrativos com um roteiro que desafia a lógica e o respeito ao dinheiro do contribuinte. Se a população amazonense já havia ficado perplexa no passado com a compra de respiradores em uma loja de vinhos durante a pandemia, a atual conjuntura política mostra que o absurdo virou regra. Sob a tutela do ex-governador Wilson Lima, o estado assistiu a compras milionárias com empresas de fachada. Agora, o seu sucessor e atual governador, Roberto Cidade, mostra que absorveu perfeitamente o modus operandi de seu padrinho político.
Em meio à severa estiagem que se aproxima e em pleno período eleitoral, o que deveria ser uma ação de socorro humanitário transformou-se em um festival de irregularidades envolvendo oficinas mecânicas, lojas de bebidas e até igrejas faturando milhões.
O Aprendiz e os R$ 184 Milhões na Oficina e na Loja de Bebidas
O mais recente e escandaloso capítulo dessa herança política envolve duas Atas de Registro de Preços do Centro de Serviços Compartilhados (CSC) do Governo do Amazonas, que juntas somavam a assombrosa quantia de R$ 184,2 milhões. A finalidade? A compra de colchões e redes de dormir para assistir a população afetada pela seca. No entanto, o perfil obscuro das empresas escolhidas para levar a bolada expôs a fragilidade — ou a intencionalidade — dos processos licitatórios estaduais.
A divisão do dinheiro público estava orquestrada da seguinte forma:
- R$ 160,8 milhões seriam destinados à aquisição de 301.180 “kits dormitório” (colchão e travesseiro) da marca Pelmex, ao preço unitário de R$ 534 (produtos que podem ser encontrados a partir de R$ 250 na internet). A empresa vencedora desse lote trilionário? A R M Comercio de Pecas Automotivas LTDA (CNPJ 10.466.439/0001-68), registrada comercialmente como uma oficina mecânica focada no comércio de peças automotivas.
- R$ 23,4 milhões seriam pagos para a compra de 300.410 redes de dormir, ao preço de R$ 78 cada (encontradas a partir de R$ 25 no mercado). A beneficiária? A Comércio de Alimentos e Bebidas Rio Madeira Ltda (CNPJ 06.967.150/0001-55), um estabelecimento de comércio varejista de bebidas e alimentos.O escândalo estourou quando o senador Omar Aziz trouxe os números a público e anunciou que protocolaria denúncias na Polícia Federal, no Ministério Público (MPF e MPE) e no Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM). Segundo o senador, arranjos com notas fiscais foram feitos para credenciar empresas que não fornecem esse tipo de material, zombando do povo amazonense enquanto profissionais de saúde e fornecedores seguem sem pagamento.
A Manobra: Suspendeu, Mas Não Cancelou
Acuado pela denúncia, Roberto Cidade precisou agir rápido. Através de um vídeo nas redes sociais e uma nota oficial, ele anunciou a “suspensão” das licitações e tentou criar uma cortina de fumaça atacando Aziz com a frase: “Meu governo não seguirá por Maus Caminhos”. A provocação, referindo-se a uma antiga operação da Polícia Federal, tentou atrelar a imagem de corrupção ao adversário para abafar os R$ 184 milhões de sua própria gestão.
Contudo, a semiótica da administração pública revela uma verdade perigosa: suspender não é anular. A gestão de Roberto Cidade apenas “arregou” temporariamente diante da pressão e apertou um botão de pausa. O processo com a oficina e a loja de bebidas continua na gaveta. O risco iminente é que, assim que a estiagem atingir o seu ápice e o “Estado de Emergência” for decretado, essas mesmas atas sejam descongeladas sob a justificativa de urgência máxima, fazendo com que os milhões fluam exatamente para as mesmas empresas.
A Herança de Wilson Lima: R$ 46 milhões em alimentos fornecidos por uma Igreja
As práticas controversas da atual gestão encontram forte eco nas ações do governo de Wilson Lima e de sua ex-secretária de Educação, Arlete Mendonça, que deixaram um rombo estimado em R$ 1,117 bilhão aos cofres públicos do estado.
Um relatório minucioso do TCE-AM escancarou a “máfia da merenda”, evidenciando pagamentos de mais de R$ 62,2 milhões baseados em “contratos verbais”. No centro desse escândalo está a empresa Ecopolie da Amazonia Ltda, que faturou R$ 46.514.557,30 entre 2025 e 2026. Desse montante, cerca de R$ 7,5 milhões foram para o fornecimento de frango para escolas sem qualquer comprovação de entrega. A contagem física do TCE encontrou apenas R$ 2 milhões em alimentos, enquanto o sistema atestava absurdos R$ 103,7 milhões. O resultado? Alunos comendo mingau de aveia e tapioca.
O detalhe mais revoltante recai sobre a sede da Ecopolie. Registrada com um capital social de R$ 9,5 milhões e sob o comando do sócio-administrador Vitor Ciarlini Rabelo, a distribuidora tem endereço oficial na Av. Margarita, nº 204, Letra A, bairro Cidade Nova. Fiscais do TCE que diligenciaram o local não encontraram câmaras frigoríficas ou depósitos, mas sim um templo religioso: o Ministério Casa no Altar (Mi Casa). O CNPJ de milhões operava em um endereço fantasma.
O Mesmo DNA
Seja comprando respiradores em loja de vinho no passado, frango fantasma em uma igreja, ou encomendando milhões em colchões de uma oficina automotiva no presente, o fio condutor permanece inalterado. Roberto Cidade assumiu a cadeira herdando os esqueletos do governo Wilson Lima e, diante de seu primeiro grande teste de integridade, demonstrou que a máquina pública do Amazonas continua operando sob a mesma lógica. Resta agora aos órgãos de controle impedir que a gaveta do Centro de Serviços Compartilhados seja reaberta na calada da seca.


