Ecopolie: conheça a empresa com sede em igreja que já levou R$ 46 milhões fornecendo frango para a SEDUC-AM

Manaus — O escândalo da empresa com sede em uma igreja evangélica na Cidade Nova, que já faturou mais de R$ 46,5 milhões da Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEDUC-AM), é apenas a ponta de um iceberg de corrupção. A denúncia está diretamente inserida no contexto de um rombo estimado em R$ 1,117 bilhão aos cofres públicos, deixado pela gestão do ex-governador Wilson Lima e da ex-secretária Arlete Mendonça. O colapso sistêmico na Educação recai agora sobre a atual administração do governador Roberto Cidade, que herda a crise e a pressão por responsabilizações.
O Rombo Bilionário e a Máfia da Merenda
Um relatório minucioso elaborado pelo Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) escancarou as irregularidades estruturais na pasta. A investigação, motivada pelo fato de o Amazonas ter registrado o pior desempenho do Brasil no Enem, detectou repasses milionários a fornecedores sem qualquer garantia jurídica. A SEDUC-AM efetuou pagamentos indenizatórios de mais de R$ 62,2 milhões baseados apenas em “contratos verbais”, uma prática ilegal para burlar dotações orçamentárias.

O caso da Ecopolie da Amazonia Ltda se destaca nesse cenário de descontrole. A empresa recebeu impressionantes R$ 46.514.557,30 entre os exercícios de 2025 e 2026. Desse montante, cerca de R$ 7,5 milhões foram repassados especificamente para o fornecimento de frango às escolas, sem que houvesse qualquer documento comprovando o recebimento da mercadoria.


O sumiço da proteína não é um fato isolado, mas parte de uma “maquiagem contábil” grave identificada pelo TCE-AM. Enquanto o sistema da Secretaria registrava R$ 103,7 milhões em alimentos, a contagem física real da auditoria encontrou apenas cerca de R$ 2 milhões. O sistema chegou a atestar a compra e entrega de 853.749 quilos de frango e 121.765 quilos de carne bovina, mas nenhum desses itens foi encontrado nos estoques. O resultado do desvio foi constatado nas escolas: alunos da rede estadual submetidos a refeições compostas predominantemente por mingau de aveia ou tapioca, sem acompanhamento nutricional.
Endereço Fantasma: CNPJ de Milhões em um Templo
Constituída sob a natureza jurídica de Sociedade Empresária Limitada e ostentando um robusto capital social de R$ 9.500.000,00, a Ecopolie operava como um endereço de fachada.

De acordo com os registros oficiais, a sede da distribuidora estaria localizada na Av. Margarita, nº 204, Letra A, bairro Cidade Nova. No entanto, ao diligenciar o local registrado no contrato, os fiscais não encontraram câmaras frigoríficas ou estrutura de logística. O endereço abriga, na verdade, um templo religioso: o Ministério Casa no Altar, conhecido como Mi Casa. O padrão se repetiu nas avaliações da Secretaria de Inteligência do TCE, que revelou que, de 63 fornecedores, sete sequer foram localizados ou não apresentavam funcionamento.

Quem Responde pela Empresa?
De acordo com o Quadro de Sócios e Administradores (QSA) constante na base de dados da Receita Federal, as operações milionárias da Ecopolie da Amazonia Ltda estão sob o comando de uma única pessoa:
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Nome/Sócio-Administrador: Vitor Ciarlini Rabelo.

A constatação de que mais de R$ 46,5 milhões em dinheiro público foram repassados para uma fornecedora registrada em uma igreja — com denúncias de milhões pagos sem a devida comprovação de entrega de mercadorias — levanta fortes suspeitas de crimes contra a administração pública e lavagem de capitais. O espaço permanece aberto para o posicionamento da SEDUC-AM e dos responsáveis pela empresa.
A Herança de Wilson Lima para Roberto Cidade
Diante do colapso que envolve desde o desvio da merenda até a superlotação severa no transporte rural de alunos, o TCE-AM recomendou que a ex-secretária de Educação, Arlete Ferreira Mendonça, devolva R$ 1,059 bilhão aos cofres do Estado.
Arlete, que foi nomeada por Wilson Lima — o qual deixou o cargo de governador para concorrer ao Senado —, chegou a ser notificada, mas não apresentou defesa no prazo hábil.
O relatório completo já foi encaminhado para o Ministério Público, que poderá dar andamento às investigações na esfera criminal. Enquanto isso, a crise bilionária armada na era Wilson Lima e Arlete Mendonça se torna o primeiro grande teste de integridade pública para o governo de Roberto Cidade, que precisará lidar com os fornecedores fantasmas que continuam assombrando os cofres da SEDUC-AM. O espaço permanece aberto para o posicionamento de todos os citados.



