Da militância de esquerda ao conservadorismo liberal: a história de Carlos Lacerda, nascido há 112 anos

Brasil – Neste dia 30 de abril de 2026, completam-se exatos 112 anos do nascimento de Carlos Lacerda, uma das personalidades mais influentes e controversas da história política brasileira do século XX. Conhecido por sua oratória incisiva e atuação quase sempre polarizadora, Lacerda construiu uma trajetória marcante que transitou intensamente entre o jornalismo combativo, a atividade empresarial e os altos escalões do poder.
Origens e a Transformação Ideológica
Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu no Rio de Janeiro em 1914, embora seu registro tenha sido feito no município de Vassouras. O peso da política já estava em seu nome — uma homenagem aos pensadores Karl Marx e Friedrich Engels — e em seu sangue: era filho do político Maurício de Lacerda e neto de Sebastião Lacerda, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Crescendo em um ambiente de constantes debates ideológicos e contato com a imprensa, Lacerda iniciou sua vida pública alinhado à esquerda, chegando a militar na Aliança Nacional Libertadora (ALN) na década de 1930. Contudo, em 1939, rompeu de forma definitiva com o comunismo, passando a adotar uma postura fortemente anticomunista pelo resto de sua vida. Essa guinada ideológica seria determinante para sua atuação durante a Guerra Fria, consolidando-o como uma liderança de direita e a principal voz da União Democrática Nacional (UDN), partido de caráter conservador.

A Força da Tribuna e a Oposição a Vargas
A carreira jornalística de Lacerda foi a principal plataforma para sua projeção nacional. Em 1949, ele fundou o jornal “Tribuna da Imprensa”, que rapidamente se tornou o grande veículo de oposição política no país. Com um estilo direto e agressivo, Lacerda usava o jornal para mobilizar setores da sociedade e realizar denúncias contundentes contra figuras públicas, conquistando admiradores fiéis e adversários ferrenhos.

O alvo principal de sua pena foi Getúlio Vargas. Lacerda liderou uma forte oposição ao regime varguista, afirmando em editoriais que Vargas não deveria ser candidato, nem eleito e, se empossado, deveria ser derrubado. Essa tensão culminou no trágico Atentado da Rua Tonelero em 5 de agosto de 1954. Na ocasião, Lacerda foi alvo de uma tentativa de assassinato que resultou na morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz, responsável por sua segurança. Atingido de raspão no pé, Lacerda acusou o Palácio do Catete de ser o mandante do crime, gerando uma crise política insustentável que levou ao suicídio de Vargas dias depois.

Governabilidade e as Contradições no Poder
A atuação parlamentar de Lacerda foi marcada por articulações agudas contra seus oponentes. Ele tentou impedir a posse do presidente Juscelino Kubitschek em 1955, participando de manobras que incluíram o episódio da “Carta Brandi” e o levante do Cruzador Tamandaré. Anos depois, em agosto de 1961, um contundente discurso seu no rádio e na TV contra o então presidente Jânio Quadros antecedeu a renúncia do mandatário no dia seguinte.

Como governador do recém-criado estado da Guanabara (1960–1965), Lacerda deixou um legado de grandes obras de infraestrutura, incluindo:
- O início da construção do Aterro do Flamengo.
- A conclusão do Túnel da Santa Bárbara e o projeto do Túnel Rebouças.
- A remoção de favelas (como a do Esqueleto e Pasmado) para conjuntos habitacionais financiados pela “Aliança para o Progresso”, dando origem a locais como Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança.
Seu governo, no entanto, foi alvo de graves controvérsias. A imprensa de oposição da época o acusou de envolvimento em escândalos de violência policial, com denúncias de que agentes do Estado assassinavam mendigos e jogavam seus corpos no rio da Guarda.
O Golpe, a Frente Ampla e os Últimos Dias
Lacerda foi um dos conspiradores do golpe civil-militar de 1964, chegando a se entrincheirar no Palácio Guanabara à espera de um ataque que nunca veio. Contudo, sua lua de mel com os militares durou pouco. Frustrado com a suspensão das eleições diretas para a presidência, rompeu com o regime já em 1965.

Em um de seus movimentos políticos mais surpreendentes, fundou em 1966 a Frente Ampla, aliando-se a dois de seus maiores inimigos históricos, João Goulart e Juscelino Kubitschek, para exigir o retorno da democracia. A ousadia custou caro: em 1968, Lacerda teve seus direitos políticos cassados pela ditadura e foi preso em um regimento militar, ironicamente dividindo a cela com o comunista Mário Lago, com quem não falava havia décadas.
Afastado definitivamente da política, Lacerda voltou-se para a literatura e para as empresas, dedicando-se especialmente à editora Nova Fronteira, por ele fundada em 1965. Carlos Lacerda faleceu em 21 de maio de 1977, no Rio de Janeiro, aos 63 anos, vítima de um infarto, deixando para trás o legado de um homem cujas palavras foram capazes de erguer e derrubar repúblicas.








