“Cada um com seu CPF”: Cidade tenta se desvincular de Wilson Lima na reta final das eleições, mas histórico de aliança enfraquece discurso
Amazonas – Como se não bastassem as idas e vindas na Justiça envolvendo o empréstimo de R$ 1,462 bilhão pretendido pelo Governo do Amazonas, Roberto Cidade (União Brasil) enfrenta agora outro desafio em plena campanha eleitoral: tentar desvincular sua gestão da administração de Wilson Lima, político com quem divide partido, palanques, articulações e anos de aliança no Estado.
A tentativa de separação ficou evidente no debate da TV A Crítica, na última segunda-feira (28). Confrontado por David Almeida sobre problemas deixados pelo governo anterior, Cidade tentou estabelecer uma fronteira entre as duas administrações. “Eu respondo pelo meu governo, pelo meu trabalho, pela minha dedicação e você está falando do Wilson Lima. Eu respondo pelo meu CPF, pela minha história de vida”, declarou. A própria cobertura do debate registrou que Cidade buscou se descolar do ex-governador durante os confrontos.
O discurso, porém, esbarra no histórico político dos dois. Wilson Lima declarou publicamente apoio à permanência de Roberto Cidade na presidência da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) em janeiro de 2023. No ano seguinte, a parceria avançou para as eleições municipais: Wilson apoiou a pré-candidatura de Cidade à Prefeitura de Manaus e chegou a afirmar que precisava dele no comando da capital.
Foi também durante essa relação política que Cidade permaneceu no comando da Aleam enquanto o governo Wilson Lima encaminhava sucessivos pedidos de operações de crédito ao Legislativo. Levantamentos publicados sobre o segundo mandato de Wilson apontam mais de R$ 17 bilhões em autorizações de empréstimos. Como presidente da Assembleia durante praticamente todo esse período, Cidade comandava justamente a Casa responsável por analisar e votar essas operações.
A troca de governador também não representou uma ruptura partidária. Roberto Cidade chegou ao Governo do Amazonas depois que Wilson Lima e o então vice Tadeu de Souza renunciaram em 5 de abril para disputar as eleições de 2026. Presidente da Aleam naquele momento, Cidade assumiu interinamente e, em 4 de maio, foi eleito governador de forma indireta pelos 24 deputados estaduais. Wilson e Cidade pertencem ao União Brasil.
Já instalado no Palácio do Governo, Cidade também manteve o crédito bilionário no centro da administração. Sua gestão tenta contratar R$ 1,462 bilhão junto ao Banco do Brasil. Nesta quarta-feira (30), a Justiça Federal permitiu que os contratos possam ser assinados, mas determinou que eventual recurso permaneça bloqueado, sem possibilidade de movimentação pelo Estado até nova decisão.
A tentativa de Cidade de apresentar seu governo como uma nova etapa também virou alvo dos adversários diante dos resultados apresentados em poucos meses de gestão. No debate, David Almeida ironizou uma das entregas destacadas pela atual administração e afirmou que Cidade teria “entregado e inaugurado uma recepção”. A declaração fazia referência às intervenções realizadas em unidades estaduais de saúde.
Por isso, a discussão que agora acompanha Roberto Cidade vai além dos meses em que ocupa formalmente o cargo de governador. Ao tentar afastar sua imagem de Wilson Lima, Cidade precisa lidar com um histórico em que foi aliado do ex-governador, recebeu seu apoio para permanecer no comando da Aleam, foi lançado com seu apoio na disputa pela Prefeitura de Manaus e presidiu o Legislativo durante a aprovação de sucessivos pedidos de empréstimos encaminhados pelo governo estadual.
A pergunta que ganha força nesta reta final de campanha é justamente onde termina o governo Wilson Lima e onde começa o governo Roberto Cidade. No discurso eleitoral, Cidade tenta estabelecer essa distância. Na trajetória política dos últimos anos, entretanto, decisões, alianças partidárias e projetos construídos pelos dois ajudam a explicar por que seus adversários insistem em tratar a atual administração como politicamente ligada à anterior.



