Para destravar cessar-fogo, Hamas aceita deixar o controle de Gaza

Mundo – O Hamas anunciou nesta segunda-feira (6) que está disposto a deixar o controle administrativo da Faixa de Gaza e transferir o governo do território para um comitê tecnocrata palestino, em uma movimentação que busca destravar as negociações do cessar-fogo mediadas pelos Estados Unidos e pressionar Israel a avançar nas próximas etapas do acordo.
Em comunicado, o grupo afirmou que aceita repassar a administração civil de Gaza ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), organismo criado para assumir a gestão do enclave durante o processo de transição previsto no plano internacional de paz. Segundo o Hamas, todas as providências administrativas e legais necessárias para essa transferência já foram tomadas.
Apesar do anúncio, o grupo não mencionou a entrega de armas ou a dissolução de sua ala militar, considerada uma das principais exigências de Israel para que a segunda fase do cessar-fogo avance. Na prática, o Hamas continua exercendo influência sobre grande parte das áreas de Gaza que não estão sob ocupação das forças israelenses.
A decisão ocorre em um momento de impasse nas negociações. Embora o acordo de cessar-fogo tenha entrado em vigor em outubro do ano passado, diversos pontos previstos ainda não foram implementados. Israel continua realizando operações militares no território, enquanto o Hamas mantém presença política e de segurança em parte da Faixa de Gaza.
Além de anunciar a disposição em deixar o governo, o Hamas fez um apelo aos mediadores internacionais para que pressionem Israel a permitir a entrada do comitê tecnocrata em Gaza. O grupo defende que a nova administração possa assumir rapidamente as funções civis e coordenar a reconstrução do território, duramente afetado por quase três anos de guerra.
Especialistas em política internacional avaliam que a iniciativa representa uma tentativa do Hamas de alterar o foco das negociações. Ao sinalizar que aceita abrir mão da administração civil, o grupo busca demonstrar flexibilidade diante da comunidade internacional e transferir a pressão para Israel, que ainda precisa autorizar a implementação do novo modelo de governança.
O Conselho de Paz, criado para acompanhar o cumprimento do acordo, afirmou que recebeu o anúncio com cautela. Em nota, o órgão destacou que avaliará a medida com base em ações concretas e reiterou que o futuro de Gaza deve estar fundamentado no princípio de uma única autoridade civil e de um único sistema de segurança.
Enquanto isso, a situação humanitária permanece crítica. A guerra já provocou dezenas de milhares de mortes, destruiu grande parte da infraestrutura local e deslocou milhões de palestinos. Mesmo com o cessar-fogo formalmente em vigor, ataques esporádicos continuam sendo registrados, e a maior parte das medidas previstas para a reconstrução e reorganização administrativa da Faixa de Gaza ainda não saiu do papel.
A expectativa agora é que os próximos dias sejam marcados por novas negociações entre Estados Unidos, Catar, Egito, Turquia, Israel e representantes palestinos para tentar destravar o acordo e definir como será a eventual transição do governo no território.


