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Estado imenso, rios que secam e pouca infraestrutura: como a Âmbar organiza a logística de energia no Amazonas

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Estado imenso, rios que secam e pouca infraestrutura: como a Âmbar organiza a logística de energia no Amazonas

Amazonas – Levar energia elétrica ao Amazonas não significa apenas estender cabos a partir de Manaus. Em um Estado com mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, cortado por rios que mudam radicalmente de nível ao longo do ano e com dezenas de municípios distantes da capital, a logística de materiais, equipes e geração pesa tanto quanto a engenharia da rede. Postes, transformadores, cabos, combustível e peças de reposição precisam chegar a localidades muitas vezes acessíveis apenas por barco.

Desde que assumiu a distribuição, em abril de 2026, a Âmbar Energia vem organizando ações para enfrentar esse desafio, combinando logística antecipada, reforço da infraestrutura, geração próxima do consumo e novas tecnologias. Esse esforço visa recuperar índices desastrosos de qualidade de serviço registrados pela Amazonas Energia, antiga concessionária de distribuição, durante a gestão de Orsine Rufino de Oliveira.

O ponto de partida da ação é a realidade dos sistemas isolados. Muitos municípios do interior ainda não estão conectados ao Sistema Interligado Nacional e dependem de usinas locais para produzir a energia que consomem. Nesses casos, o combustível também precisa ser transportado, frequentemente por rios.

A conexão de Parintins ao sistema nacional, em 2023, mostra o impacto que uma obra de infraestrutura pode provocar: com a interligação, a usina térmica a diesel que atendia o município pôde ser desativada. Onde a conexão ainda não existe, porém, a logística de abastecimento continua sendo parte essencial do funcionamento do sistema.

Um dos maiores desafios é a vazante dos rios. Quando o nível das águas diminui, a navegação fica mais difícil, alguns portos deixam de ser acessíveis e o transporte de cargas pode precisar de rotas alternativas. Por isso, a Âmbar criou a chamada Operação Vazante, iniciada em maio, antes do período mais crítico da estiagem.

Segundo a empresa, cerca de 1.350 toneladas de postes, transformadores, cabos, cruzetas, peças de manutenção e componentes de reposição foram mobilizadas para o interior, alcançando os 61 municípios e as nove calhas de rios do Estado.

A operação exige planejamento com meses de antecedência. Segundo a concessionária, uma balsa partiu de Manaus em 30 de maio para atender municípios das calhas dos rios Juruá e Japurá, e mais de 15 viagens de balsas e ferry boats foram realizadas.

Equipes acompanham diariamente o nível dos rios e as condições de acesso aos portos para antecipar remessas e, quando necessário, buscar rotas alternativas. A empresa afirma ainda ter mobilizado centenas de profissionais, entre eletricistas, técnicos, engenheiros e trabalhadores do transporte fluvial, além de ter alinhado medidas preventivas com a Defesa Civil do Amazonas. A lógica é simples: no Amazonas, esperar uma emergência para começar a transportar equipamentos pode significar esperar o rio subir novamente.

A logística não termina quando o material chega ao município. A infraestrutura também precisa ser reforçada para reduzir a frequência e o impacto das interrupções. Em Humaitá, por exemplo, um plano acompanhado pela Defensoria Pública prevê a substituição de 39 postes e 262 cruzetas, o reforço de 34 quilômetros de rede, a limpeza da vegetação próxima à fiação e a ampliação da equipe de atendimento rural. São obras convencionais, mas fundamentais para um sistema que precisa funcionar em regiões onde o deslocamento das equipes é mais complexo e demorado.

A relação com as prefeituras passou a ser outra frente dessa estratégia. Segundo dados divulgados pela própria concessionária, a Âmbar realizou reuniões com 38 prefeitos e formalizou 20 acordos com municípios amazonenses. A aproximação busca identificar problemas locais e organizar intervenções de maneira antecipada. Em um Estado no qual as necessidades de uma cidade podem ser muito diferentes das de outra, esse tipo de articulação também tem uma função logística: ajuda a concessionária a organizar prioridades, materiais e equipes.

A estratégia inclui ainda uma mudança na própria localização da geração. Em vez de depender exclusivamente de grandes centros produtores e de longas linhas de transmissão, a existência de usinas próximas aos consumidores pode criar pontos adicionais de segurança para o sistema. Em Manacapuru, por exemplo, a Âmbar instalou uma termelétrica de 5 MW para reforçar o fornecimento no horário de maior demanda. Segundo a empresa, a medida criou margem de segurança para o período de pico, quando cerca de 10% da população poderia sofrer interrupções diárias entre 18h e 23h.

A lógica da geração descentralizada ganha importância em um Estado onde uma falha em uma infraestrutura de transmissão ou distribuição pode ter consequências muito maiores do que em redes urbanas densamente interligadas. Uma usina instalada próxima à carga não elimina todos os riscos, mas pode reduzir a dependência de um único caminho de fornecimento e funcionar como uma espécie de colchão de segurança em momentos de maior demanda ou diante de limitações da rede.

Essa estratégia também está presente em outros investimentos da Âmbar na região. Em 2024, antes de assumir a Amazonas Energia, a empresa comprou da Eletrobras um conjunto de ativos de geração termelétrica associado aos sistemas isolados do Amazonas, incluindo unidades em Anamã, Anori, Caapiranga e Codajás. A empresa também trabalha com alternativas de geração híbrida, combinando térmicas, energia solar e baterias, previstas para 23 comunidades. São soluções diferentes para um mesmo problema: produzir energia mais perto de onde ela é consumida quando a conexão a grandes sistemas de transmissão ainda não é viável.

A descentralização, porém, não significa abandonar as grandes obras de infraestrutura. O plano anunciado pela Âmbar prevê R$ 5,5 bilhões em investimentos até 2031 na distribuição de energia do Amazonas. Desse total, R$ 3,9 bilhões serão recursos próprios da companhia. O programa inclui expansão e revitalização da rede, construção e ampliação de subestações, retomada de projetos do Luz para Todos, substituição de equipamentos e investimentos em novas tecnologias de monitoramento.

É nesse ponto que entra a chamada Energia 4.0. Em um território tão extenso, não basta ter equipes espalhadas pelo Estado: é preciso saber onde estão os problemas antes de enviar essas equipes. Medidores inteligentes, sensores, sistemas de monitoramento e automação podem permitir que a concessionária acompanhe o comportamento da rede à distância, identifique alterações de carga e localize falhas com maior precisão. A tecnologia passa a cumprir, portanto, uma função logística: reduzir o tempo entre a identificação de um problema e a chegada da solução.

A digitalização também pode ajudar no combate às perdas não técnicas. A Âmbar estima que aproximadamente 44% da energia injetada na rede não seja faturada, principalmente em razão de desvios e ligações clandestinas.
A empresa pretende combinar novas tecnologias de medição, modernização da infraestrutura e ações de regularização para reduzir esse percentual. Trata-se de uma estimativa da própria companhia, que não deve ser confundida automaticamente com os indicadores regulatórios de perdas utilizados pela ANEEL.
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