COPIME denuncia ataques racistas e perseguição política contra liderança indígena no Amazonas

Amazonas – A Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (COPIME) protocolou uma comunicação institucional de fatos graves junto à Presidência do Conselho Estadual de Cultura do Amazonas (CONEC), denunciando uma série de ataques racistas, intimidações e perseguição política direcionados à liderança indígena Marcivana Rodrigues Paiva Sateré Mawé, coordenadora da entidade e representante da sociedade civil no Conselho Municipal de Cultura (Concultura).
O documento, datado de 25 de março de 2026, afirma que os episódios não se tratam de divergências políticas comuns em espaços colegiados, mas sim de um padrão reiterado de atuação caracterizado por disseminação de acusações sem base consolidada, violência racial, tentativa de constrangimento e uso indevido de espaços institucionais para promover narrativas de criminalização e deslegitimação.
A COPIME aponta que os fatos atingem diretamente não apenas a integridade da liderança indígena, mas também o direito coletivo dos povos indígenas à participação política em instâncias públicas e de formulação de políticas culturais.
Ataques ocorreram em espaços ligados ao sistema estadual de cultura
De acordo com a comunicação apresentada, parte significativa das condutas denunciadas teria ocorrido dentro de ambientes vinculados ao próprio Conselho Estadual de Cultura, incluindo grupos de comunicação entre conselheiros, articulações institucionais e espaços formais de reunião.
O documento sustenta que tais locais, que deveriam garantir pluralidade, respeito e participação democrática, teriam sido instrumentalizados para promover perseguição e ataques contra uma liderança indígena, contrariando princípios básicos da administração pública e parâmetros mínimos de proteção aos direitos humanos.
Mensagens intimidatórias e pressão psicológica
Entre os registros apresentados no material protocolado, a COPIME relata frases atribuídas a participantes dos grupos e espaços institucionais que teriam sido direcionadas à liderança indígena com caráter intimidatório, incluindo:
“Entrega o cargo e sai.”
“Pega tua merenda e aguenta o pipoco.”
“Aguenta a pressão psicológica.”
Segundo a entidade, essas expressões não configuram crítica institucional legítima, mas tentativa de constrangimento e pressão psicológica para forçar o afastamento de Marcivana de espaços de representação.
Linguagem racista e desumanizante é citada no documento
A comunicação apresentada ao CONEC descreve ainda que a liderança indígena teria sido alvo de ofensas com conteúdo discriminatório e racista, incluindo expressões como:
“índia da Shopee”
“ratos” e “ratazanas”
“parasitas”
“corja”
“gangue”
“catita gulosa”
“vagabundos”
“gente que gosta de uma boquinha”
“gente que gosta de uma teta”
“filhotes puxa-sacos”
A COPIME afirma que as falas citadas ultrapassam qualquer limite de debate político e representam ataques diretos à dignidade humana e à identidade indígena, reforçando estigmas historicamente utilizados para excluir povos indígenas de espaços de poder e decisão.
COPIME aponta violência política racial e de gênero
O documento destaca que Marcivana Sateré Mawé é uma mulher indígena em posição institucional, o que, segundo a entidade, insere o caso em um contexto mais amplo de violência política de gênero e raça, marcada por tentativas de deslegitimar e afastar mulheres indígenas de espaços públicos por meio de ataques, exposição e perseguição institucional.
A COPIME também sustenta que o caso gera um “efeito silenciador”, que não atinge apenas a liderança diretamente envolvida, mas compromete a participação coletiva dos povos indígenas em políticas públicas culturais.
Organização afirma representar mais de 35 povos indígenas em Manaus
No dossiê explicativo anexado à comunicação, a COPIME informa que atua há mais de 15 anos e é considerada a maior organização indígena de Manaus, reunindo e representando mais de 35 povos indígenas, alcançando aproximadamente 35 mil indígenas residentes na capital e região metropolitana.
A entidade afirma que seu trabalho envolve defesa de direitos indígenas em contexto urbano, incidência em políticas públicas municipais e estaduais, fortalecimento cultural e territorial de comunidades indígenas e promoção de iniciativas educacionais e sociais.
Origem do conflito teria relação com editais da Política Nacional Aldir Blanc
De acordo com o dossiê, a campanha de ataques teria começado após a COPIME ter sido contemplada em editais culturais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) no município de Manaus, em 2025.
Segundo a organização, os projetos foram avaliados tecnicamente e selecionados dentro do procedimento previsto nos editais. No entanto, após a divulgação dos resultados, teria se formado uma narrativa pública apontando suposto favorecimento ou conflito de interesses devido à participação de Marcivana no Conselho Municipal de Cultura.
A COPIME sustenta que essa narrativa deu origem a uma escalada de ataques pessoais, raciais e institucionais, além de tentativas de judicialização e acionamento de órgãos de controle.
Dossiê menciona incentivo à judicialização e mobilização de órgãos de controle
Em trecho do material anexado, a COPIME aponta que mensagens transcritas indicariam que Vanderley Pinheiro e Jordania Damasceno teriam participado de manifestações ofensivas e racistas e também endossado o incentivo à judicialização do caso e à mobilização de órgãos de controle contra Marcivana e contra a organização.
O dossiê também menciona uma Ação Popular ajuizada por Douglas Rodrigues, apontado como participante do mesmo círculo de interlocução que impulsionaria acusações contra a COPIME.
Segundo o documento, Douglas Rodrigues participou do edital cultural no qual a COPIME foi contemplada e não foi aprovado naquele processo seletivo, tendo sido contemplado apenas no edital lançado em 2026.
Caso teria avançado para assédio institucional em reunião oficial
O dossiê registra ainda que, em 10 de outubro de 2025, a campanha teria atingido um patamar considerado mais grave, quando conselheiros do CONEC teriam instrumentalizado uma reunião oficial com representantes do Ministério da Cultura para reiterar acusações contra Marcivana.
Segundo o documento, o encontro teria sido solicitado formalmente para tratar de dificuldades institucionais, mas teria sido desviado para ataques pessoais, sem a presença da liderança indígena e sem possibilidade de contraditório.
COPIME aponta agravamento após recomendação do MPAM
O material também menciona que o caso se intensificou com a emissão da Recomendação nº 0002/2026/79PJ, expedida pela 79ª Promotoria de Justiça do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM).
Entre os pontos citados no dossiê, a recomendação sugeriu:
afastamento cautelar de Marcivana
suspensão de pagamentos à COPIME
Segundo a organização, a recomendação teria sido divulgada publicamente antes de garantido o pleno contraditório, o que teria provocado nova onda de ataques e fortalecido narrativas de irregularidade.
A COPIME afirma que protocolou manifestação formal no procedimento instaurado pelo Ministério Público em 22 de janeiro de 2026, apresentando esclarecimentos e documentos. No entanto, segundo o dossiê, em contato realizado com a promotoria em março de 2026, foi informado que a manifestação não havia sido juntada aos autos.
Organizações indígenas divulgam nota pública conjunta
O documento inclui ainda uma nota pública conjunta assinada por organizações indígenas, que denuncia racismo e tentativa de silenciamento contra Marcivana Sateré Mawé.
A nota manifesta preocupação com a exposição pública da liderança indígena e afirma que investigações ainda em curso estariam sendo divulgadas de forma sugestiva de culpabilidade, ampliando riscos à integridade física, psicológica e reputacional de defensoras de direitos humanos.
COPIME pede providências imediatas ao Conselho Estadual de Cultura
Na comunicação institucional encaminhada ao CONEC, a COPIME solicita a adoção de providências, incluindo:
instauração de procedimento interno para apuração das condutas denunciadas
identificação dos responsáveis por manifestações racistas e intimidatórias
adoção de medidas para cessar o uso de espaços institucionais para ataques pessoais
garantia de ambiente institucional seguro e respeitoso
manifestação formal do Conselho repudiando práticas de racismo e violência política
eventual responsabilização dos agentes envolvidos
comunicação das providências adotadas à COPIME
realização de diálogo institucional com participação da entidade
A entidade também afirma que já acionou o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), em razão das violações narradas.
O documento solicita ainda que o Conselho se manifeste em até 10 dias úteis após o recebimento da comunicação.
Caso reacende debate sobre racismo institucional e participação indígena
A denúncia apresentada pela COPIME levanta um alerta sobre o ambiente enfrentado por lideranças indígenas em espaços institucionais de decisão e controle social. A organização sustenta que o caso ultrapassa disputas administrativas e configura um processo continuado de violência política racial, com tentativas de criminalização e deslegitimação de uma liderança indígena mulher em atuação pública.
A COPIME afirma que o objetivo da representação não é restringir o debate público, mas garantir que os espaços institucionais permaneçam livres de discriminação, perseguição e violação de direitos humanos.
O caso agora aguarda manifestação do Conselho Estadual de Cultura do Amazonas sobre as providências que serão adotadas diante das denúncias formalizadas.
Confira o documento:








