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Tem empresa, tem dinheiro, mas não tem chão: a crise de terrenos que ameaça a Zona Franca de Manaus

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Tem empresa, tem dinheiro, mas não tem chão: a crise de terrenos que ameaça a Zona Franca de Manaus

Manaus — A Zona Franca de Manaus (ZFM) vive um cenário paradoxal. Pouco tempo após consolidar sua maior vitória jurídica e institucional recente, com o Congresso Nacional blindando suas vantagens fiscais na reforma tributária até o ano de 2073, o maior polo industrial da Região Norte enfrenta um inimigo inesperado e de ordem estritamente física: a falta de terrenos regularizados e urbanizados para receber novas indústrias.

O problema, que vinha sendo debatido sob reserva nos bastidores do setor produtivo, rompeu os muros corporativos e passou a ocupar o topo da lista de prioridades do Conselho de Administração da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). Conforme revelado pelo jornal Folha de S. Paulo, a escassez crítica de áreas prontas para instalação de galpões e linhas de montagem ameaça frear o ritmo de crescimento de uma engrenagem que responde por milhares de empregos na Amazônia.

O Polo em Números

  • R$ 227,6 Bi: Faturamento recorde registrado pelo Polo Industrial ao fechar o balanço de 2025 (+11%).
  • 131 Mil: Trabalhadores empregados de forma direta nas cerca de 600 indústrias ativas na região.
  • Ano 2073: Prazo de manutenção das vantagens fiscais garantido pelo Congresso na Reforma Tributária.
  • +30%: Crescimento estimado no número de fábricas nos próximos três anos, com mais de 200 novos projetos.

A corrida pelo solo regularizado

O nó que estrangula a expansão não se deve à falta de espaço geográfico na imensidão amazônica, mas sim à ausência de lotes estruturados dentro dos chamados “distritos industriais”. São nesses perímetros urbanos que se concentram os insumos básicos exigidos pela atividade fabril de alta performance: redes elétricas robustas, captação e abastecimento de água, pavimentação para carretas pesadas e escoamento logístico.

Enquanto o Distrito Industrial 1, a área pioneira do projeto, alcançou a ocupação completa de sua capacidade, as atenções se voltaram para os Distritos 2 e 3. No entanto, essas reservas territoriais transformaram-se em focos crônicos de disputa jurídica e social, marcados por invasões de terra e processos acelerados de favelização.

O alerta máximo foi acionado pela própria Suframa durante uma reunião de conselho realizada em março deste ano. Na ocasião, o superintendente do órgão, Leopoldo Montenegro, admitiu abertamente a gravidade da situação fundiária nos Distritos 2 e 3 e fez uma forte advertência sobre o risco de colapso logístico decorrente da inércia governamental.

“A gente tem um problema fundiário muito grande dentro do Distrito 1, 2 e 3, que é relativo às invasões. Então, se a gente não adotar um procedimento mais dinâmico, mais célere, para que a gente possa fazer essa cessão de lotes, nós vamos perder a maioria das áreas”, declarou Leopoldo Montenegro, Superintendente da Suframa.

A situação é acentuada pelo calendário eleitoral de 2026, período historicamente associado ao recrudescimento de ocupações irregulares na periferia de Manaus. Para mitigar o problema, a autarquia propôs uma alteração drástica nas regras de concessão de terras, sugerindo substituir o tradicional e moroso rito de licitações bienais por editais rápidos de chamamento público. O modelo atual, amarrado a concorrências a cada dois anos (a última foi em 2025 e a próxima está prevista apenas para 2027), impede uma resposta em tempo real às demandas do mercado. Contudo, as mudanças institucionais seguem travadas na burocracia federal.

Projetos aprovados correm risco de ficar no papel

A urgência em destravar o gargalo físico contrasta com a efervescência econômica da Zona Franca. Blindada institucionalmente, inclusive após a Justiça do Distrito Federal extinguir uma ação civil pública movida pela Fiesp que tentava derrubar os incentivos concedidos pela reforma tributária, a ZFM tornou-se um porto seguro atrativo para o capital privado.

Somente em março, o Conselho aprovou 83 novos projetos industriais e de serviços, com previsão de aportes de R$ 1,17 bilhão e abertura de quase 3 mil postos de trabalho. Além disso, segundo dados da própria autarquia, há uma projeção de instalação de mais de 200 novas fábricas nos próximos três anos, o que representaria uma expansão de 30% na base industrial instalada de Manaus. Contudo, empresários relatam que a execução desses planos já esbarra na realidade da infraestrutura disponível.

Impacto Real nos Investimentos: Em reunião mantida com o vice-presidente Geraldo Alckmin, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Jorge Nascimento Júnior, pontuou que o déficit imobiliário industrial converteu-se em um fator impeditivo urgente. Segundo atas do encontro, empresas interessadas em migrar suas operações para o Amazonas recuaram diante da impossibilidade de garantir lotes para erguer suas estruturas.

Embora posteriormente tenha buscado suavizar o tom, qualificando suas manifestações como um “alerta construtivo e compartilhado”, o posicionamento do líder setorial expôs a apreensão do mercado. O temor unânime das lideranças industriais e do governo local, representado pelo vice-governador Tadeu de Souza e pelo secretário de Desenvolvimento, Serafim Corrêa, é que a formidável vitória jurídica conquistada no parlamento acabe esvaziada pela falta de asfalto, energia e segurança jurídica da terra.

Procurados de forma reiterada pela reportagem para comentar os planos de contingência e as propostas de flexibilização das normas de cessão de uso, tanto a direção da Suframa quanto o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) optaram pelo silêncio, não enviando respostas até o fechamento desta edição. Enquanto as canetas oficiais hesitam em Brasília, o relógio do desenvolvimento de Manaus corre contra o tempo e contra o limite físico de suas fronteiras industriais.


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