Technos: da Suíça a Manaus, empresa de relógios vira referência mundial em mais de 100 anos de história
Manaus – Há algo de poético na trajetória da Technos. Nascida nas montanhas geladas do Jura, na Suíça, no início do século XX, a marca encontrou seu verdadeiro lar no coração quente e úmido da Floresta Amazônica. Mas a geografia é apenas o pano de fundo de uma história de sobrevivência corporativa que desafia as probabilidades.
Entre 1900 e 2025, a companhia não apenas trocou de nacionalidade; ela encarou a obsolescência tecnológica, flertou com o colapso financeiro e, contra todas as previsões que decretavam o fim do relógio de pulso, ressurgiu como uma gigante da Bolsa de Valores e pioneira global em sustentabilidade.
Esta é a saga de como uma empresa centenária acertou os ponteiros com a modernidade.
O DNA: Quando o Suíço virou Brasileiro
A história começa em 1900, com a família Gunziger, no vilarejo suíço de Welschenrohr. Em 1924, eles registraram o nome Technos — derivado do grego techné, significando arte ou destreza. Durante décadas, a marca foi sinônimo da precisão suíça, até que um empreendedor gaúcho mudou o destino da empresa.
Em 1956, Mário Goettems fundou a importadora Centauro e começou a trazer os relógios para o Brasil. O sucesso foi tão avassalador que, na década de 1970, o Brasil já consumia mais de um milhão de relógios por ano, tornando-se o maior mercado da marca no mundo.
A virada chave ocorreu em dois atos: primeiro, com a inauguração da fábrica em Manaus, em 1982, consolidando a operação industrial local. Segundo, na década de 1990, quando Goettems comprou os direitos globais da marca, transferindo a sede para o Brasil. A Technos deixava de ser uma estrangeira visitante para se tornar uma potência nacional.
A Crise de Identidade: O Medo do “Efeito Kodak”
Apesar da liderança histórica, a década de 2010 trouxe ventos frios. A chegada dos smartwatches, liderada pelo Apple Watch em 2015, espalhou o pânico no setor relojoeiro tradicional. O temor era o “Efeito Kodak”: a ideia de que o relógio analógico desapareceria tal qual os filmes fotográficos.
Movida por esse medo, a Technos cometeu seu maior erro estratégico entre 2014 e 2018. Tentando fugir de seu core business, a empresa tentou se reinventar como uma marca de “acessórios de moda”. Abriu fábrica de joias, acelerou franquias de varejo e substituiu executivos experientes do setor relojoeiro por profissionais de outros mercados.
O resultado foi desastroso. A empresa perdeu o foco, endividou-se e viu suas ações derreterem na bolsa, agravado por uma recessão econômica no Brasil. Em 2019, a situação era crítica: dívida alta, caixa baixo e moral no chão.
O “Back to Basics” e o Choque de Gestão
A recuperação começou com o retorno de Joaquim Ribeiro ao comando executivo em 2019. Ribeiro, que já conhecia a empresa desde 2008, trouxe um diagnóstico claro: o relógio não estava morrendo. O problema da Technos era interno, não tecnológico.
Sua estratégia, batizada de “Back to Basics” (De volta ao básico), envolveu decisões duras:
- Foco total em relógios, mirando as classes B e C.
- Enxugamento do portfólio: redução de 19 para 6 marcas estratégicas (incluindo Technos, Mormaii, Euro e Condor).
- Fim da aventura em joias e redução das franquias.
Quando a pandemia de Covid-19 atingiu o mundo em 2020, a empresa precisou ser ainda mais drástica para sobreviver. A fábrica em Manaus fechou por seis meses e o quadro de funcionários foi reduzido em 50%. Foi um período de sacrifício, mas que permitiu à empresa renegociar dívidas e reabrir, em 2021, leve, ágil e pronta para a retomada.
O Salto Financeiro: 765% de Retorno
A aposta no “básico” provou-se correta. O mercado de relógios tradicionais não apenas sobreviveu ao smartwatch, como cresceu acima de setores como vestuário, calçados e eletrodomésticos no pós-pandemia. O relógio deixou de ser apenas um marcador de horas para se consolidar como símbolo de status e estilo.
Os números validam a estratégia:
Entre setembro de 2020 (quando a ação valia R$ 0,90) e o final de 2025, o retorno aos acionistas foi de 765%, superando gigantes da bolsa.
A empresa fecha 2025 com recorde de vendas e lucro operacional.
A Technos retomou a liderança absoluta na América Latina.
O Legado: Primeira Relojoaria “Empresa B” do Brasil
Se a gestão financeira salvou o presente da Technos, a gestão ESG garantiu o seu futuro. Em outubro de 2025, o Grupo Technos alcançou um marco histórico: tornou-se a primeira empresa do setor relojoeiro nacional a conquistar a Certificação Empresa B (B Corp™).
Este reconhecimento internacional atesta que a empresa equilibra lucro e propósito. Entre as iniciativas que garantiram o selo, destacam-se:
Ambiental: Logística reversa de 100% das embalagens e produtos, gestão carbono zero e o resgate da “Linha Automática” (relógios mecânicos que dispensam bateria, unindo tradição e ecologia).



