Seca no Amazonas freia grandes navios e afeta rota do polo industrial
Amazonas — No coração econômico do Norte do Brasil, o ritmo da produção industrial não é ditado apenas pelas flutuações do mercado, mas também pela régua que mede o nível dos rios. Com o agravamento da vazante, a logística do estado corre contra o tempo.
O polo industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM) enfrenta mais um ciclo de incertezas operacionais. A forte descida no nível dos rios na bacia amazônica está exigindo adaptações rápidas nas rotas de navegação para garantir o abastecimento de insumos e o escoamento de produtos fabricados localmente, como eletroeletrônicos, motocicletas e eletrodomésticos, para o restante do país.
O epicentro atual desse desafio logístico encontra-se em Itacoatiara, um município que atua como porta de entrada estratégica e hub logístico para as embarcações de grande porte que seguem rumo à capital amazonense. Na última quarta-feira (7), o rio Amazonas registrou uma queda de 11 centímetros na região, atingindo a cota de 4,76 metros. Essa redução direta na profundidade da água impõe severos limites de calado — a medida que determina a profundidade necessária para que os navios cargueiros naveguem com segurança.
Adaptação e operação fracionada
Os efeitos restritivos da vazante já alteraram a rotina da cadeia de suprimentos. Desde o final de setembro, quando o nível do rio Amazonas marcava 5,89 metros em Itacoatiara, os grandes navios foram forçados a mudar sua dinâmica. Para não interromper o fluxo logístico, as embarcações começaram a transferir parte de suas cargas para balsas antes de seguir viagem até Manaus.
Com a perda de 1,13 metro de profundidade naquela região desde o fim do mês passado (chegando a 4,87 metros na terça-feira, 6), a infraestrutura precisou ser redimensionada. Terminais logísticos adotaram a estratégia de deslocar estruturas flutuantes para Itacoatiara. Essa operação viabiliza o recebimento dos navios e a transferência dos contêineres para balsas menores, que demandam um calado inferior para completar o trajeto até a capital. Embora necessária, essa etapa de baldeação acrescenta tempo e complexidade à logística industrial.
Radiografia da vazante: um alerta regional
O recuo das águas não se restringe à calha do Amazonas, desenhando um cenário de retração em quase toda a bacia:
Rio Negro (Manaus): Registrou uma baixa de 10 centímetros em 24 horas, chegando a 18,05 metros na quarta-feira (7). O nível atual é inferior aos registrados no mesmo dia em 2021, 2022 e 2025. Contudo, o setor produtivo respira com um ligeiro alívio em comparação ao biênio anterior, já que a cota permanece acima das secas severas de 2023 (14,66 metros) e 2024 (12,29 metros).
Alto Solimões (Tabatinga): O ritmo de descida é acentuado. O rio perdeu 16 centímetros em um dia, atingindo 2,54 metros. A mudança tem sido brusca: desde os dias 28 e 29 de setembro (quando marcava 3,56 metros), o Solimões já perdeu 1,02 metro.
Rio Japurá (Maraã): Apresentou uma redução de 3 centímetros em 24 horas, marcando 8,14 metros (ante 8,48 metros no primeiro dia de outubro).
Rio Madeira (Porto Velho – RO): Na contramão do restante da bacia, apresentou uma leve alta de 6 centímetros nas últimas 24 horas, alcançando 2,66 metros.
Incerteza no horizonte econômico
O comportamento hidrológico atual mantém o setor industrial e o varejo em estado de atenção constante, especialmente pela proximidade de períodos de alta demanda. Em projeção divulgada em setembro, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) alertou que, considerando cenários baseados em anos de forte impacto do fenômeno El Niño, o rio Amazonas em Itacoatiara poderá chegar ao final de outubro com cotas críticas, variando entre apenas 57 centímetros e 3,32 metros.
Caso as projeções mais severas se concretizem, a engenharia logística da Zona Franca de Manaus precisará ser ainda mais testada, evidenciando como a economia da região continua intrinsicamente ligada às forças e aos humores da natureza.




