Expansão de Data Centers no Brasil impulsiona uso estratégico do gás natural na matriz elétrica
Brasil — O país consolidou sua posição como o principal hub de infraestrutura digital da América Latina, ocupando a 12ª posição no ranking global de data centers. No entanto, o rápido avanço da Inteligência Artificial (IA) e o processamento de grandes volumes de dados trouxeram um desafio técnico imediato: a segurança do suprimento elétrico. Embora o país possua uma das matrizes mais limpas do mundo, a natureza intermitente das fontes solar e eólica tem colocado o gás natural no centro da estratégia de expansão do setor.
De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a carga solicitada por empresas de tecnologia deve saltar de 89 MW em 2025 para 2.157 MW até 2030. Esse crescimento exponencial pressiona o governo e agentes privados a buscarem soluções que equilibrem sustentabilidade com a chamada “energia firme” — aquela que não depende de condições climáticas para ser gerada.
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) é o principal motor dessa transformação. Com a previsão de atrair cerca de R$ 2 trilhões em investimentos, o programa oferece isenções fiscais que visam não apenas atrair grandes players globais, mas também descentralizar a infraestrutura para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Para Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o gás natural atua como o lastro necessário para essa expansão. “Não se pode renunciar a nenhuma fonte de energia em um cenário de transição. O desafio é o tripé: sustentabilidade, segurança energética e preço competitivo”, afirma. Atualmente, o gás representa cerca de 9% da matriz elétrica nacional, mas há um movimento crescente para que esse percentual aumente para dar suporte aos sistemas críticos que não podem sofrer interrupção.
Um dos pontos de inovação discutidos por engenheiros e investidores é o modelo Bring Your Own Power (BYOP). Nele, o próprio data center instala turbinas e motores a gás em suas dependências, operando de forma independente da rede nacional (off-grid).
Essa modalidade resolve dois gargalos simultâneos:
1. Prazos: A conexão de grandes cargas à rede elétrica nacional pode levar anos; a instalação local de térmicas reduz esse tempo para meses.
2. Confiabilidade: Elimina riscos de falhas na transmissão de longa distância.
Além disso, a adoção do ciclo combinado — tecnologia que reaproveita o calor da queima do gás para gerar vapor e eletricidade adicional — tem elevado a eficiência térmica dessas usinas em até 60%, reduzindo significativamente a pegada de carbono quando comparada ao uso de geradores a diesel, comuns em situações de emergência.
Enquanto o mercado se movimenta, o Congresso Nacional analisa o PL 3.018/2024, que pretende regulamentar a eficiência energética desses centros de processamento. A expectativa é que o texto final crie diretrizes claras para o uso de fontes fósseis de menor impacto (como o gás) em complementação às renováveis.
O consenso entre analistas do setor é que, embora o futuro do Brasil seja inegavelmente verde, a “estrada” para chegar lá no setor de tecnologia será pavimentada pela estabilidade do gás natural. Sem uma fonte de base confiável, o país corre o risco de ver os grandes investimentos em IA migrarem para mercados com maior segurança operacional.


