Tragédia anunciada: Governo do AM sabia de irregularidades e mesmo assim deixou empresa autuada operar guindaste que matou trabalhador
Manaus – O que era para ser a festa de abertura do Natal na capital amazonense virou cena de terror e revolta. Na manhã de domingo (23), o operário Antônio Rodrigues, de 40 anos, foi esmagado e morreu após o tombamento de um guindaste no Largo de São Sebastião, no Centro Histórico de Manaus. A árvore de Natal, símbolo pago com dinheiro público pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC), foi montada por uma empresa que, segundo o Crea-AM, não tinha a menor condição legal de operar aquele equipamento.
Veja vídeo:
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A Cenart Arquitetura Artística Ltda já tinha sido autuada uma semana antes exatamente pela mesma razão: ausência total de documentação para operar guindaste. Os fiscais encontraram apenas ARTs de elétrica e estrutura metálica – papel que não serve para içar carga pesada. Mesmo assim, a Secretaria de Cultura do governo Wilson Lima liberou a empresa para trabalhar. Resultado: um caminhão-guinho sem plano de rigging, sem ART específica para o serviço de alto risco e, pasmem, a mesma empresa, que em 2024, esteve envolvida no incêndio na árvore de Natal anterior da mesma praça.
Ou seja: o governo sabia que estava contratando uma empresa reincidente em irregularidades graves. Preferiu fechar os olhos, economizar na fiscalização e jogar a vida de trabalhadores no colo do acaso. Antônio Rodrigues pagou o preço com a vida.
Enquanto representantes do Governo emitem nota fria de “profundo pesar” e promete “apuração rigorosa”, a pergunta que não quer calar é simples: quem autorizou uma empresa autuada dias antes a operar um guindaste proibido em área pública, no coração da cidade, com milhares de pessoas circulando? Quem assinou o termo de permissão sabendo que não havia plano de rigging apresentado? Quem, dentro da SEC, achou que árvore de Natal vale mais que norma técnica e vida humana?
O Crea-AM foi taxativo: até sexta-feira (21) não existia nenhuma ART registrada para operação de guindaste naquele local. O que estava autorizado era apenas um caminhão-munck – que, aliás, também foi autuado por irregularidades. Traduzindo: o governo Wilson Lima entregou uma obra pública de visibilidade máxima a uma empresa que operava na clandestinidade técnica.
E não é a primeira vez. Em 2024, a mesma Cenart provocou um incêndio na estrutura natalina. Em 2025, provocou uma morte. O padrão é claro: licitação frouxa, fiscalização de fachada e prioridade zero para a segurança do trabalhador. Dinheiro público torrado em evento de marketing enquanto famílias ficam sem seus provedores.
Antônio Rodrigues deixou mulher e filhos. Deixou também uma lição que o Palácio do Compensa parece teimar em não aprender: enfeite de Natal não pode custar sangue. Mas, no governo Wilson Lima, parece que pode.
A Polícia Civil investiga o caso. O Crea promete punir os responsáveis técnicos. Falta agora o principal: alguém do alto escalão da Secretaria de Cultura e do governo do Estado assumir que errou, que falhou na fiscalização e que, sim, tem culpa no cartório.
Porque solidariedade em nota de pesar não ressuscita pai de família. E árvore de Natal bonita não apaga a mancha de sangue no Largo de São Sebastião.
Polêmicas
A empresa Cenart não é nenhuma desconhecida. Pelo contrário: a Cenart Produções e Serviços Cenográficos Eireli (ou suas variações de razão social) é a queridinha das árvores de Natal do governo do Amazonas desde 2019 – e sempre com valores milionários, contratos polêmicos e pouca ou nenhuma concorrência real.
2019
O Governo já pagou R$ 299 mil à Cenart para “reformar e adaptar” a árvore do Largo São Sebastião. Valor suficiente, na época, para comprar um apartamento de três quartos em condomínio fechado em Manaus. Licitação? Modalidade convite – aquela que convida só quem o governo quer.
2020 – Pandemia não foi empecilho para gastar
Em pleno pico da Covid-19, quando hospitais colapsavam e faltava oxigênio, o governo Wilson Lima declarou “calamidade” para dispensar licitação e pagar R$ 2,01 milhões – quase sete vezes o valor de 2019 – para três empresas montarem a mesma árvore. Uma delas? A Cenart, claro.
O argumento oficial: “a pandemia impediu o planejamento antecipado”. Curioso: o Natal acontece todo dia 25 de dezembro. Dá para prever com 365 dias de antecedência. O valor daria para comprar quatro BMW zero km ou um apartamento de luxo na Ponta Negra.




