Sargento Salazar foi crucial para fazer Wilson Lima perder o apoio do PL e desistir da pré-candidatura ao Senado
Amazonas – A decisão do governador Wilson Lima (União Brasil) de jogar a toalha e desistir da corrida ao Senado Federal neste ano expôs as fraturas de uma estratégia política que ruiu. Oficialmente, a desistência ecoa o baixo desempenho nas pesquisas de intenção de voto e a pouca afinidade com o vice-governador, Tadeu de Souza (Progressistas), que herdaria a caneta. Nos bastidores, porém, o golpe de misericórdia veio de Brasília: as anotações do senador Flávio Bolsonaro (PL) deixaram claro que o Partido Liberal preferia apostar no capital eleitoral do vereador Sargento Salazar a endossar o chefe do Executivo amazonense.
O Custo de Uma Aliança Impossível
O documento estratégico que circulou nos altos escalões do PL, com escrita atribuída a Flávio Bolsonaro, trazia um diagnóstico letal para as pretensões de Wilson. Ao lado do nome do governador, constava o alerta: “80% de impopularidade”. Mais abaixo, a equação que definiu o rumo do partido: uma aliança com o Palácio da Compensa custaria ao PL o vereador Sargento Salazar, o nome mais forte da base conservadora na capital.
A permanência de Salazar — que desponta como franco favorito em todas as sondagens para a Assembleia Legislativa ou Câmara Federal, e que até na disputa ao Senado testou bem — foi considerada inegociável. A situação de Wilson foi ainda mais isolada ao notar que o senador Plínio Valério já era tratado como um aliado orgânico e provável quadro do partido dos Bolsonaro.
Diante do xadrez eleitoral, a candidatura do governador tornou-se inviável. Sem o “selo” bolsonarista em Manaus e enfrentando o consolidado domínio do senador Eduardo Braga (MDB) no interior do estado, Wilson viu-se sem oxigênio político.
O Preço do Passado
O desgaste entre Wilson Lima e Salazar não é obra do acaso. Repetidas tentativas do governador de costurar as pazes, seja pessoalmente ou escalando emissários de peso, foram sumariamente rechaçadas pelo vereador. Salazar carrega o peso das duras retaliações que enfrentou ainda como membro da Polícia Militar. Nos corredores da política baré, a “fatura” dessas perseguições é creditada ao atual secretário de Segurança Pública, Coronel Vinícius Almeida, um dos homens fortes de Wilson.
Além das mágoas do passado, o grupo político que orbita em torno do sargento calculou que a trincheira da oposição — batendo de frente tanto com Wilson Lima quanto com o prefeito David Almeida — é o terreno mais fértil. A aposta é colher uma votação histórica este ano para, num futuro próximo, alçar voos eleitorais ainda mais altos.
O Desmanche da Fachada Conservadora
A ruína do projeto senatorial de Wilson é o epílogo de uma articulação que começou a falhar em 2024. Desde que foi reeleito em 2022, o governador tentou moldar a própria imagem à semelhança da direita bolsonarista: compareceu a manifestações pró-Bolsonaro, faturou nas redes sociais uma visita de cortesia quando o ex-presidente esteve internado em Manaus, e entregou nacos do governo — incluindo a poderosa Previdência e outros dois órgãos de peso — a Alfredo Nascimento, comandante do PL no Amazonas.
A fatura chegou nas eleições municipais. Ao patrocinar a candidatura de Roberto Cidade (União) para a prefeitura e manobrar — sem sucesso — para forçar a desistência do Capitão Alberto Neto (PL), Wilson viu sua aposta naufragar num amargo quarto lugar. Alberto Neto, por outro lado, avançou ao segundo turno, cacifando-se para o Senado e fortalecendo o bloco que hoje sepultou as pretensões do governador. O grupo ainda emplacou a empresária Maria do Carmo Seffair (ex-Novo) como pré-candidata ao Governo do Estado com a bênção do clã Bolsonaro.
A ironia final do processo: a perseguição patrocinada contra um então praça da PM talvez tenha sido o gatilho que forçou, anos depois, o precoce fim de carreira política de um governador.
Esta matéria foi baseada em informações e análises publicadas originalmente pelo Blog do Hiel Levy



