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Redução da jornada de trabalho para 36h semanais pode encolher o PIB em 6,2%, apontam FGV-Ibre e Ipea

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Redução da jornada de trabalho para 36h semanais pode encolher o PIB em 6,2%, apontam FGV-Ibre e Ipea

Brasil — O debate nacional sobre o fim da escala 6×1 e a implementação de uma jornada de 36 horas semanais atingiu um novo patamar técnico com a divulgação de projeções econômicas recentes. De acordo com análises fundamentadas em dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a proposta carrega um risco sistêmico considerável: sem um aumento real de eficiência, a mudança poderia provocar uma retração de 6,2% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

O núcleo da questão reside no custo unitário do trabalho. Ao reduzir o tempo de serviço mantendo o salário nominal, o custo da hora trabalhada para quem cumpre o teto constitucional de 44 horas sofreria um salto imediato de 22%. No conjunto do mercado formal, essa pressão média seria de 17,6%, um custo que as empresas precisariam repassar aos preços ou absorver reduzindo investimentos e margens.

A Barreira da Produtividade Estagnada

Para que uma redução de jornada não resulte em perda de riqueza, ela precisaria ser compensada por um ganho equivalente de produtividade — ou seja, o país precisaria produzir em 36 horas o que hoje produz em 44. No entanto, os dados históricos do Observatório da Produtividade Regis Bonelli mostram um cenário desfavorável: entre 1981 e 2023, a produtividade média do brasileiro cresceu apenas 0,5% ao ano.

Enquanto o setor agropecuário se destaca com avanços de 6% ao ano, a indústria e o setor de serviços — que responde por 70% das horas trabalhadas no país — permanecem praticamente estagnados. Esse descompasso sugere que a renda do trabalho tem crescido acima da capacidade de entrega, pressionando o caixa das empresas sem um retorno proporcional em volume de produção.

Impactos Setoriais e Sociais

A análise indica que o impacto não seria uniforme. O setor de Transportes aparece como o mais vulnerável, com uma perda estimada de 14,2% em seu valor adicionado, seguido pela Indústria Extrativa (12,6%) e pelo Comércio (12,2%). No caso do comércio, a preocupação se estende ao bolso do trabalhador: uma jornada menor pode significar menos tempo de exposição ao cliente, afetando diretamente aqueles que dependem de comissões para compor sua renda.

Já as pequenas empresas enfrentariam o desafio logístico mais severo. Em estabelecimentos com até quatro funcionários, quase 88% da força de trabalho cumpre jornadas superiores a 40 horas. Para esses negócios, a adaptação exigiria contratações que muitas vezes o faturamento não comporta.

O Risco do Efeito Regressivo

Especialistas do FGV-Ibre alertam ainda para um possível caráter “regressivo” da medida. A redução beneficiaria prioritariamente os trabalhadores do setor formal e servidores públicos. Por outro lado, a vasta parcela de informais e autônomos continuaria submetida a longas jornadas, podendo ainda enfrentar o aumento de preços nos serviços básicos e produtos de consumo, gerado pelo repasse dos custos operacionais das empresas formalizadas.

O desafio que se impõe ao legislador é equilibrar o bem-estar social com a realidade matemática das contas nacionais. Sem uma reforma que ataque as raízes da baixa produtividade brasileira, o custo do descanso pode acabar sendo pago com inflação ou estagnação econômica.


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