Putin é convidado por Trump para integrar Conselho de Paz de Gaza, diz Kremlin
Mundo – Em uma jogada que mistura diplomacia ousada, pragmatismo econômico e puro show político, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está montando o que ele mesmo chamou de “o maior e mais prestigiado conselho já reunido em qualquer momento e lugar”: o Conselho da Paz de Gaza (Board of Peace, em inglês), órgão criado para supervisionar a transição pós-guerra na Faixa de Gaza após o cessar-fogo entre Israel e Hamas.
A mais recente reviravolta veio nesta segunda-feira (19): o Kremlin confirmou que Vladimir Putin recebeu convite formal para integrar o conselho. O porta-voz Dmitry Peskov afirmou que a proposta chegou por canais diplomáticos e que Moscou está “estudando todos os detalhes” antes de responder.
A inclusão de Putin no mesmo fórum que já conta com nomes como o secretário de Estado americano Marco Rubio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, o genro de Trump Jared Kushner e o bilionário Marc Rowan é vista por analistas como um sinal da disposição de Trump de buscar acordos com adversários geopolíticos quando isso serve aos interesses americanos — especialmente reconstrução bilionária e contenção de influência iraniana na região.
Convites polêmicos para líderes da América Latina
O Brasil e a Argentina também estão na lista de convidados. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a carta oficial, mas o Palácio do Planalto informou que a participação será avaliada nos próximos dias, considerando “objetivos, composição e custos envolvidos”. Lula, que desde 2023 critica duramente as ações militares de Israel em Gaza e defende solução de dois Estados via ONU, enfrenta um dilema diplomático: aceitar pode ser interpretado como endosso indireto à agenda pró-Israel de Trump; recusar pode gerar atrito com Washington em um momento de negociações comerciais sensíveis.
Já o presidente argentino Javier Milei não hesitou: aceitou o convite publicamente, classificando-o como “uma honra” e compartilhando a carta-convite em suas redes. A rápida adesão de Milei reforça a sintonia ideológica entre Buenos Aires e a Casa Branca no segundo mandato de Trump.
Outros líderes que receberam ou confirmaram convites incluem o turco Recep Tayyip Erdogan, o egípcio Abdel Fattah el-Sisi, o canadense Mark Carney, o rei da Jordânia Abdullah II e até o indiano Narendra Modi.
A polêmica da “taxa de filiação” de US$ 1 bilhão
O projeto de estatuto do conselho, obtido pela agência Reuters, revela uma condição inusitada: mandatos de três anos para a maioria dos membros, mas filiação permanente (vitalícia) para países que aportarem mais de US$ 1 bilhão em dinheiro vivo no primeiro ano.
A Casa Branca negou que se trate de uma “taxa mínima de adesão”, classificando a contribuição como “demonstração profunda de compromisso com a paz, segurança e prosperidade”. A frase, no entanto, gerou memes e críticas nas redes sociais: muitos internautas já batizaram o conselho de “clube dos bilionários da paz”.
Trump designou o major-general americano Jasper Jeffers para comandar a Força Internacional de Estabilização (ISF) que atuará em Gaza, responsável pela segurança e pelo treinamento de uma nova força policial que substitua o Hamas.
O que isso significa para o futuro?
A iniciativa representa uma clara tentativa de Trump de contornar estruturas tradicionais como a ONU — que o Brasil costuma defender — e impor uma arquitetura de governança paralela liderada pelos EUA. A presença simultânea de Putin, líderes árabes, europeus e latino-americanos no mesmo conselho pode ser tanto uma fórmula genial de multipolaridade forçada quanto uma receita para paralisia diplomática.
Enquanto o Kremlin analisa, Lula pondera e Milei já embarcou, o mundo assiste a mais um capítulo da era Trump 2.0: onde tudo é possível, desde que o cheque seja grande e a foto seja boa.


