‘O Elefante na sala e o Jabuti no regimento’: votação escancara racha entre Adjuto Afonso e Alessandra Campêlo na Aleam

Amazonas – A sessão suplementar desta quarta-feira (15) na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) passou longe de ser um mero formalismo burocrático: foi uma eleição decisiva, imposta por uma intervenção corretíssima do Supremo Tribunal Federal (STF). A Suprema Corte, sob a relatoria do ministro Flávio Dino, acertou em cheio ao barrar a manobra inconstitucional da Casa, que tentou aprovar a sucessão da presidência de forma oculta dentro de um projeto de resolução sobre a causa animal. Obrigados pela Justiça a realizar o pleito dentro da legalidade, os deputados acabaram expondo à luz do dia uma fratura purulenta no poder legislativo estadual.
De um lado, Adjuto Afonso, um presidente chancelado sob a humilhação de um enquadramento do Judiciário. Do outro, Alessandra Campêlo e o bloco do PSD, vice na chapa de Omar Aziz, pré-candidato ao Governo do Amazonas, mas é aliada histórica do Governo de Roberto Cidade e Wilson Lima e agora veste falsa capa da moralidade institucional pelo puro cálculo eleitoral.
Adjuto Afonso e a Conveniência do Jabuti
O deputado Adjuto Afonso senta na cadeira principal referendado pelo placar de 19 a 5, mas carrega o peso de uma ascensão constrangedora. A verdade crua é que ele aceitou passivamente herdar o comando da Aleam por meio de uma aberração legislativa. Foi preciso que Brasília intervisse para que a Casa respeitasse o próprio regimento.
Em seu primeiro discurso oficial como presidente eleito para o mandato residual, ele sentiu a necessidade de jurar independência, tentando colar os cacos da credibilidade da Casa:
“Esta casa certamente não será um puxadinho, tenha certeza disso. (…) É lógico que as pautas da governabilidade para o governador, para que ele possa aqui fazer aquelas pautas que melhoram a vida da população, que transformem a vida da população, a gente esteja aqui fazendo isso. (…) ajudando o governo do Estado, sem ser subserviente.”
Quando o chefe do Legislativo precisa usar o microfone para prometer que não é um mero despachante do Executivo, é porque a autonomia já desceu pelo ralo há muito tempo. O episódio mancha severamente a biografia de um parlamentar decano, que chancelou a tentativa de atropelar o processo democrático e só recuou após o STF colocar a Casa em seu devido lugar.
A Amnésia de Alessandra e o Teatro do PSD
Se de um lado há conivência, do outro sobra hipocrisia. A postura adotada pela deputada Alessandra Campêlo e pela bancada do PSD e partidos aliados não é um levante ético; é um ensaio geral escancarado para as eleições de 2026.
Não custa lembrar ao eleitor que Alessandra e Adjuto já dividiram a mesma trincheira. Foram aliados, apoiaram a mesma base e sentaram lado a lado na mesma Mesa Diretora. A própria parlamentar, em um ato falho de sinceridade no plenário, confessou que sua indignação institucional tem data recente:
“Quero primeiro ressaltar aqui o meu apreço e admiração pelo deputado Adjunto Afonso e quando ele assumiu a presidência dessa casa, desde o primeiro momento, eu conversei, eu apoiei. No entanto, por uma questão de independência desse poder (…) o meu partido, o PSD, tomou a decisão (…) de votar contra, por isso o meu voto é contra pela independência do poder e para que fique demonstrado que o PSD também não concorda com a forma como foi feita a efetivação do cargo numa resolução que tratava de nomenclatura da Comissão de Causa Animal…”
Votar contra Adjuto agora, alegando desgaste por uma manobra com a qual até ontem pareciam conviver pacificamente, é conveniente apenas porque a sigla precisa construir uma narrativa imediata de distanciamento do Palácio.
Outubro Bate à Porta
As reais motivações desse circo não estão nas páginas do Regimento Interno, mas no calendário eleitoral. Com o xadrez político de 2026 em pleno movimento, o PSD calculou que colar sua imagem à base do Estado, neste momento de desgaste, é um péssimo negócio.
A prova do crime desse pragmatismo eleitoreiro foi confessada, com impressionante falta de pudor, pelo colega de sigla de Alessandra, o deputado Wilker Barreto: “O voto contrário não é pessoal, mas nós estamos há poucos meses de um processo eleitoral que se avizinha. E votar contrário hoje é um posicionamento do nosso partido.”
O saldo final do dia 15 de julho deixa o parlamento amazonense em frangalhos. Adjuto obteve o seu referendo, mas governará sob a pecha da intervenção do STF e precisando provar diariamente que a Aleam não é um anexo do governo estadual. Alessandra e o PSD tentam vender ao eleitor uma independência de vitrine, uma oposição encomendada que só aparece quando as alianças antigas deixam de ser lucrativas nas urnas.
O elefante estacionou no meio do plenário. O jabuti fez seu estrago e virou pó judicial. E, no meio do racha ruidoso entre antigos aliados, o povo do Amazonas continua assistindo a um teatro onde os princípios mudam de acordo com as exigências da próxima eleição.


