Da ‘Farsa do Ovo’ ao ‘Paredão ”eficiente”: Como as armações eleitoreiras escalaram para o risco de morte de PMs no Amazonas

Manaus – A política amazonense sempre foi palco de polêmicas e episódios marcantes durante o período eleitoral. Na corrida pelos votos e pela aprovação popular, muitos candidatos recorrem a todos os meios necessários, criando situações que possam ser usadas para atacar adversários ou ganhar engajamento. Essas táticas, que muitas vezes apelam para o vitimismo e para a comoção pública, são velhas conhecidas na disputa, mas vêm ganhando contornos cada vez mais sombrios e perigosos.
Um exemplo clássico desse tipo de estratégia ocorreu em 2012, durante a campanha para a prefeitura de Manaus, em um episódio que ficou conhecido como a “farsa do ovo”. Naquela ocasião, a disputa principal era entre Artur Neto e Vanessa Grazziotin. Ao chegar em uma emissora de TV para um debate, a então candidata foi atingida por ovos, acusando imediatamente um grupo organizado pelos adversários de promover o ataque, fato que foi exaustivamente explorado para gerar comoção.

No entanto, a suposta agressão logo levantou fortes questionamentos sobre ser uma encenação para alavancar a candidatura na reta final. A Justiça Eleitoral acabou arquivando a ação baseando-se em relatórios da Polícia Federal, reforçando a suspeita de grande parte do eleitorado de que tudo não passou de um teatro político orquestrado para ludibriar a população. Se no passado as artimanhas envolviam apenas ovos e encenações constrangedoras, nas eleições majoritárias para 2026 o cenário escalou para um nível trágico, envolvendo derramamento de sangue e apostas com vidas humanas.
A estratégia de forçar uma vitimização atingiu o ápice da irresponsabilidade na noite da última quinta-feira (3), durante um comício no bairro Novo Israel, zona Norte de Manaus. O evento servia de palanque para o governador e candidato à reeleição, Roberto Cidade, e o candidato ao Senado, Wilson Lima, em uma área que havia sido previamente ameaçada pelo Comando Vermelho (CV). Ignorando o aviso da facção, os políticos decidiram manter a agenda, empurrando a Polícia Militar para uma zona de conflito anunciada.
O resultado dessa manobra foi a exposição brutal das forças de segurança. O capitão da Polícia Militar do Amazonas, Israel Queiroz, foi baleado na perna por criminosos enquanto fazia a guarda no local. A gestão optou por arriscar a vida de agentes muitos obrigados a estarem ali fora de seus horários de trabalho , construindo intencionalmente um cenário de vitimização. A corporação foi jogada para sangrar no asfalto, enquanto as lideranças continuavam blindadas no palanque.
Como se não bastasse a exposição deliberada ao risco, o desdobramento do caso trouxe à tona outra faceta do oportunismo eleitoral: a falsa exaltação de um sistema de segurança falho. Tentando capitalizar politicamente a rápida prisão dos suspeitos, Wilson Lima declarou: “Em menos de quatro horas depois do atentado a tiros a polícia prendeu os dois bandidos que balearam um oficial da Polícia Militar. Parabéns a eficiência dos policiais. Eles foram identificados a partir das câmeras do paredão. É a tecnologia a favor da segurança pública. E essa é mais uma clara tentativa de facções criminosas interferirem no processo eleitoral. Mas nada disso vai nos intimidar.”
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No entanto, a narrativa oficial esbarra em contradições evidentes. O sistema “Paredão”, frequentemente alvo de denúncias da população por ineficiência e falhas operacionais, magicamente teria funcionado de forma impecável neste caso. Contudo, o governo não apresentou qualquer imagem ou prova de que as câmeras públicas identificaram os atiradores. A realidade geográfica do bairro Novo Israel também desmente o discurso: não há qualquer câmera do Paredão na rua Jericó, onde o crime ocorreu. O equipamento mais próximo fica na avenida Margarida.
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A verdade que circula nos bastidores é que, muito provavelmente, as imagens que auxiliaram na prisão foram cedidas pelos próprios moradores, através de circuitos privados de segurança de suas residências. Além disso, a tentativa de creditar o sucesso da operação à gestão ofusca os verdadeiros responsáveis pela captura: os próprios policiais militares. As equipes foram as primeiras a localizar os suspeitos, movidas não por qualquer favor político a Wilson Lima ou Roberto Cidade, mas pelo forte sentimento de justiça e lealdade ao irmão de farda ferido.
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Esse abandono e aparelhamento das forças de segurança escancaram uma realidade assustadora onde policiais são tratados como peças descartáveis para alimentar narrativas de campanha. Casos como a farsa de 2012 e a tragédia premeditada de 2026 reforçam a urgência de o eleitor desconfiar das situações geradas no período eleitoral. Quando a busca pelo poder se apropria do sangue de trabalhadores e mascara a realidade com falsas propagandas de tecnologia, o vitimismo político deixa de ser apenas uma farsa e se consolida como um perigoso crime contra a sociedade.

