Citado 33 vezes pela Polícia Federal no caso Master, Gonet pede ao STF anulação da própria investigação

Brasil – O procurador-geral da República, Paulo Gonet, protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido para anular as investigações do caso Banco Master, sob a justificativa formal de apontar irregularidades processuais. No entanto, o levantamento do sigilo do inquérito revelou o que parece ser o verdadeiro motor da manobra: Gonet e seus familiares são citados ao menos 33 vezes nos relatórios da Polícia Federal que ele próprio tenta invalidar.
O argumento oficial apresentado pela PGR na noite de terça-feira (1º) sustenta que o relator do caso, ministro André Mendonça, teria conduzido investigações envolvendo outro integrante da Corte — o ministro Alexandre de Moraes — sem a devida autorização do plenário do STF. Gonet argumenta que a ordem da PF data de 24 de agosto de 2026 e que Mendonça não poderia ignorar os alvos da apuração. Contudo, ao mirar em uma suposta falha processual de Mendonça, o procurador-geral tenta, na prática, enterrar provas contundentes de sua própria relação promíscua com os investigados.
O relatório da Polícia Federal detalha uma proximidade incompatível com o cargo de chefe do Ministério Público Federal. Identificado ora pelo próprio nome, ora pela sigla “PG”, Gonet aparece em diálogos frequentes com o advogado Ciro Soares, responsável por articular os interesses de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, junto a autoridades da República.
Os dados extraídos pela PF não deixam margem para ambiguidades e expõem a cronologia da relação:
- O encontro na varanda (15 de março de 2025): Em pleno sábado, o advogado Ciro Soares enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Paulo Gonet. Na imagem, ambos aparecem em uma varanda, vestindo roupas casuais e óculos escuros. A mensagem de Soares ao ex-dono do Banco Master era direta: “Liga aqui. Ele quer falar com vc”.
- O apoio aos investigados (28 de março de 2025): Menos de duas semanas depois, uma nova troca de mensagens, encaminhada por Soares a Vorcaro, escancara o alinhamento do PGR. Gonet escreve: “Que bom! Estou na torcida por vocês!”. Na mesma conversa, declara afeto (“Já estou com saudades de você!”) e avisa que está embarcando para Roma.
- Charutos, uísque e nepotismo corporativo: A intimidade ganha contornos de fisiologismo quando o grupo planeja uma viagem a Londres. Animado com a perspectiva de viajar com os alvos da investigação, Gonet reage: “Oba!!! Tomara que tenha charuto e Macallan!”. No dia seguinte, ao ser impedido de comparecer ao evento, o procurador-geral não hesita em perguntar se o próprio filho poderia substituí-lo na viagem internacional — que, no fim das contas, acabou cancelada.
Os fatos documentados pela Polícia Federal esvaziam completamente a tese de que o pedido de nulidade feito por Gonet tenha raízes no zelo pela Constituição ou na proteção ao ministro Alexandre de Moraes. Ao usar o peso institucional da PGR para pedir a anulação de um inquérito no qual atua como entusiasta, amigo e aspirante a beneficiário de viagens luxuosas dos investigados, Paulo Gonet protagoniza um dos mais graves conflitos de interesse recentes da República. A tentativa de sepultar o caso Master não soa como uma defesa do rito processual, mas como uma manobra desesperada de autodefesa.

