BRB coloca R$ 21,9 bilhões do Master na vitrine da Faria Lima em busca de comprador
Mundo – Em meio ao maior escândalo financeiro recente envolvendo bancos públicos brasileiros, o Banco de Brasília (BRB) deu um passo decisivo para tentar virar a página da Operação Compliance Zero. O presidente Nelson Antônio de Souza, que assumiu o comando em novembro de 2025 após a crise deflagrada pela Polícia Federal, confirmou que o banco colocará à venda toda a carteira de ativos adquirida do Banco Master — um pacote avaliado internamente em R$ 21,9 bilhões.
Nesta quarta-feira (4), Souza viaja pessoalmente para a Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo, onde conduzirá negociações diretas com potenciais compradores. A operação é coordenada pela BRB DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), braço do banco responsável pela gestão de valores mobiliários.
O pacote inclui carteiras de crédito de atacado, pessoas físicas e fundos de investimento, além de ativos imobiliários de destaque — entre eles, um terreno valioso na Marginal Pinheiros, em São Paulo, próximo ao luxuoso complexo Cidade Jardim e à Casa Fasano. A venda desses bens representa uma tentativa clara de desintoxicação patrimonial: o BRB busca se livrar de ativos que, segundo investigações da PF, foram inflados ou sequer existiam de fato, em operações que geraram prejuízos bilionários.
A aquisição original, realizada entre 2024 e 2025 pela gestão anterior, envolveu cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master, muitas delas consideradas “papéis podres” sem lastro real. A Polícia Federal investiga indícios de fraude, gestão temerária e possível lavagem de dinheiro, com ramificações que alcançam executivos do Master (incluindo o controlador Daniel Vorcaro), fundos administrados por terceiros e até compras pulverizadas de ações do próprio BRB por pessoas ligadas ao esquema.
O Banco Central já determinou um provisionamento de R$ 2,6 bilhões para cobrir parte dos riscos, e auditorias externas (realizadas por Machado Meyer com suporte da Kroll) identificaram “achados relevantes” que foram entregues à PF e ao BC. O BRB afirma ter liquidado ou substituído cerca de R$ 10 bilhões dos ativos suspeitos, mas o rombo potencial ainda assombra as contas do banco público controlado pelo Governo do Distrito Federal.
Nelson Antônio de Souza, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste, adotou tom otimista ao falar sobre o movimento: “O banco está tomando todas as providências de fortalecimento e preservação dos recursos dos clientes e do controlador, tanto do ponto de vista de liquidez quanto de capital e transparência”. Ele destacou que, caso a venda se concretize com sucesso, o BRB pode dispensar aporte adicional do GDF — uma das opções em estudo para recompor o capital.
Paralelamente, a instituição prepara um plano de capitalização que inclui a criação de um Fundo de Investimento Imobiliário (FII) e a possibilidade de empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A estratégia sinaliza uma guinada para uma gestão mais conservadora e focada em recuperação de ativos, após meses de turbulência que incluíram afastamentos, prisões temporárias e exposição nacional do caso.
Enquanto as negociações avançam em São Paulo, o BRB permanece sob os holofotes da PF, do Congresso (que discute a criação de uma CPI) e do mercado. A venda integral da carteira do Master pode ser o primeiro grande teste da nova administração — e, se bem-sucedida, um sinal de que o banco público do Planalto Central consegue, enfim, deixar para trás o fantasma do Banco Master.


