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Tráfico e vingança: quatro pessoas da mesma família são condenadas a mais de 77 anos de prisão por assassinato de jovem no Novo Aleixo

Tráfico e vingança: quatro pessoas da mesma família são condenadas a mais de 77 anos de prisão por assassinato de jovem no Novo Aleixo

Manaus – A frieza dos números estampados nas capas dos processos criminais muitas vezes não consegue traduzir a dimensão do horror vivenciado nas ruas da capital amazonense. Sete anos após um dos crimes mais chocantes e brutais registrados no Conjunto Águas Claras, bairro Novo Aleixo, zona Norte de Manaus, a Justiça do Estado do Amazonas finalmente deu seu veredito. Em uma sessão marcada por intensos debates e um resgate doloroso dos fatos ocorridos em 2019, a 1.ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus condenou, na última segunda-feira (14/9), quatro homens pertencentes à mesma família pela morte com requintes de crueldade do adolescente Ismael Calistro dos Santos Júnior, de apenas 17 anos.

O crime, que à época chocou a comunidade pela extrema violência e sadismo dos executores, revelou-se uma teia complexa onde se misturaram o submundo do tráfico de drogas, rixas familiares e um romance adolescente proibido. As sentenças, que somadas ultrapassam os 77 anos de prisão, encerram um capítulo sombrio de impunidade e trazem uma resposta dura do Estado contra a barbárie que tenta se impor nas periferias da metrópole amazônica.

Presos suspeitos na época do crime:

A Anatomia de uma Tragédia Anunciada

Para entender a dimensão do julgamento realizado nesta semana, é preciso voltar no tempo, ao primeiro semestre de 2019, os registros policiais iniciais e a denúncia do Ministério Público oscilaram entre os meses de março e abril para precisar a data exata em que Ismael teve sua vida ceifada. Ismael, com apenas 17 anos, era um jovem inserido em uma realidade dura. De acordo com as investigações da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) conduzidas pelo então delegado Paulo Martins, o adolescente atuava como um “aviãozinho”, gíria utilizada para descrever menores recrutados para o transporte de pequenas quantidades de entorpecentes no varejo do tráfico.

No entanto, as motivações do crime foram além de uma simples disputa territorial. A trama de ódio começou a se desenhar em torno de um relacionamento amoroso. Ismael namorava a filha de Leidimar dos Santos Nascimento e de um dos envolvidos no crime, um romance que era terminantemente desaprovado pela família da garota. A tensão atingiu seu ponto de ebulição em uma noite fatídica, que começou com uma discussão acalorada em um bar local entre a vítima e Maurício dos Santos, de 37 anos, tio da namorada de Ismael.

O desentendimento no bar foi apenas o estopim. Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Amazonas (MP/AM), havia também um pano de fundo criminoso: os acusados planejavam se apropriar de entorpecentes que pertenciam ou estavam sob a guarda do adolescente. Ao descobrir o plano, Ismael cometeu o erro que lhe custaria a vida: foi até a residência dos réus para ameaçá-los caso tentassem roubar a droga. A ousadia do jovem, somada à desavença familiar, selou seu destino.

A Madrugada de Sangue e Crueldade

Após ameaçar a família, Ismael deixou o local rapidamente devido a uma patrulha policial que rondava a área. Porém, o orgulho ferido e a promessa de vingança mobilizaram um verdadeiro esquadrão da morte familiar. Maurício dos Santos, apontado como o mentor intelectual e líder da ação, convocou seus quatro sobrinhos — os irmãos Douglas Felipe, Douglas Jhonathan, Mário Gabriel e Mário Lucas Barbosa dos Santos, para consumar o ato.

O que se seguiu nas horas seguintes, por volta das 4h da madrugada na Rua Jardim Olinda, foi uma sessão de tortura a céu aberto. Ismael foi emboscado e passou a ser espancado brutalmente pelos homens. Não satisfeitos, os agressores arrastaram o adolescente sangrando pelas ruas do Águas Claras, jogando-o no porta-malas de um carro com o objetivo de “desová-lo” em uma área de mata fechada da região.

No instinto desesperado de sobrevivência, Ismael conseguiu se desvencilhar e tentou correr para a vida. Foi um esforço em vão. O adolescente foi alcançado de forma covarde: atropelado pelos réus, ele caiu indefeso no chão, momento em que foi executado com múltiplos e violentos golpes de terçado (faca de grande porte). A perícia técnica da época revelou detalhes grotescos da execução, atestando que, em um ato final de puro ódio e mensagem típica de facções, o jovem teve suas mãos decepadas.

O Tribunal do Júri: A Hora da Verdade

Sete anos após as prisões preventivas e o início da instrução criminal, os cinco réus sentaram-se no banco dos réus na Ação Penal n.º 0612774-61.2019.8.04.0001. A sessão, presidida de forma firme pelo juiz de direito Geildson de Souza Lima, foi o palco do embate final entre a acusação e a defesa.

O promotor de justiça Vivaldo Castro de Souza, representando o MP/AM, dissecou com precisão cirúrgica a participação de cada membro do clã. O Ministério Público postulou a procedência parcial da denúncia, pedindo a condenação de quatro dos cinco réus. Durante as sustentações orais, a defesa, capitaneada pelos advogados Adonay Paes Barreto de Oliveira e Luís Eduardo dos Santos Valois Coelho, utilizou a clássica tese de negativa de autoria e insuficiência de provas materiais e testemunhais que ligassem diretamente os irmãos aos golpes fatais. Os réus, em seus interrogatórios perante os jurados, mantiveram o pacto de silêncio parcial e negaram ter cometido o assassinato.

Mas o Conselho de Sentença, formado por membros da sociedade manauara, não se deixou convencer pelas negativas e reconheceu a materialidade e a brutalidade do homicídio, acatando as qualificadoras de crueldade e recurso que dificultou a defesa da vítima.

A Dosimetria da Pena e a Justiça Executada

O juiz Geildson de Souza Lima proferiu as sentenças de forma individualizada, pesando as circunstâncias de cada réu:

1. Maurício dos Santos (O Tio e Líder): Condenado a 22 anos e 6 meses de reclusão. O magistrado pesou a mão ao reconhecer a agravante de liderança na organização da empreitada criminosa. Foi Maurício quem instigou os sobrinhos e planejou a emboscada, valendo-se do atropelamento (recurso que dificultou a defesa) para finalizar a execução com golpes de terçado.

2. Douglas Jhonathan Barbosa dos Santos e Mário Gabriel Barbosa dos Santos: Ambos condenados a 19 anos e 6 meses de reclusão. Os jurados entenderam que a dupla agiu com premeditação extrema e “crueldade acentuada”. A perseguição, o arrastamento da vítima pelas ruas e os golpes de faca mutiladores foram determinantes para a elevação de suas penas. (Douglas Jhonathan, vale lembrar, havia sido preso preventivamente logo após o crime, junto com Maurício e Leidimar, esta última não figurando entre os condenados deste júri).

3. Mário Lucas Barbosa dos Santos: Recebeu a pena de 16 anos e 6 meses de reclusão. Sua pena foi ligeiramente atenuada devido à menoridade relativa na época do crime — ele tinha menos de 21 anos , fator legal que compensou integralmente a agravante do recurso que dificultou a defesa da vítima, baixando o tempo final de cumprimento em regime fechado.

4. Douglas Felipe Barbosa dos Santos: Foi o único beneficiado pelo Conselho de Sentença. A pedido do próprio Ministério Público, que durante a instrução não encontrou elementos robustos e individualizados de sua participação efetiva nos golpes fatais, Douglas Felipe foi absolvido. O magistrado determinou a imediata revogação de quaisquer medidas cautelares impostas a ele.

A Mensagem da Justiça

Em um movimento processual rigoroso, o juiz Geildson de Souza Lima não esperou o trânsito em julgado e determinou a imediata execução provisória da pena, expedindo os mandados de prisão em plenário para os condenados, garantindo que os sentenciados saíssem do fórum diretamente para o sistema prisional.

Embora a defesa ainda tenha o direito de recorrer da sentença, a condenação deste clã familiar encerra uma ferida aberta na comunidade do Novo Aleixo. Mais do que punir os algozes do jovem Ismael, o Tribunal do Júri de Manaus enviou um recado claro de que tribunais paralelos, vinganças sangrentas e mutilações a céu aberto não passarão impunes pelo Estado de Direito. Para a família de Ismael, nada trará o adolescente de volta, mas o eco do martelo do juiz garante que o grito abafado naquela madrugada de 2019, na área de mata do Águas Claras, finalmente obteve a sua resposta.


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