Roberto Cidade provoca Omar Aziz: “Diz que vai prender todo mundo. Vai prender nada! Porque aqui só tem homem de bem”, mas esquece do filho do ‘Vandex’; relembre escândalo

Manaus – O cenário político do Amazonas atingiu um nível crítico de ebulição. Em pleno lançamento de sua pré-candidatura ao Governo do Estado, cargo que ocupa desde maio de 2026, o governador Roberto Cidade (União Brasil) subiu o tom contra seu principal adversário, o senador Omar Aziz (PSD). Em discurso inflamado, Cidade sugeriu que o senador utiliza influência sobre a Polícia Federal e o STF para perseguir aliados. “Diz que vai prender todo mundo. Vai prender nada! Porque aqui só tem homem de bem”, declarou.
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Cidade esqueceu dos “esquemas do Paulinho”
O discurso de Cidade ignora um núcleo de poder que atravessa as instituições locais. No epicentro está Vanderlei Alvino, o “Vandex”, Diretor do Centro de Cooperação Técnica do Interior (CCOTI) da ALEAM, cargo estratégico na casa que Cidade presidiu. Vandex é casado com Adriana Cidade, prima do governador. O filho do Vandex, Paulo Victor de Brito Alvino, mais conhecido como ‘Paulinho’, tornou-se o elo mais perigoso dessa corrente familiar. Embora não seja sobrinho direto, Paulo Victor circula nos círculos de poder do grupo de Cidade, e sua movimentação financeira agora coloca em xeque a narrativa de “gente de bem” do Palácio do Governo.
O cerco do Santander: a “ingenuidade” que virou condenação
A conexão política ganha contornos dramáticos nos autos do processo cível nº 4001124-67.2025.8.26.0100, movido pelo Banco Santander. O caso revela uma engenharia financeira sofisticada: mais de R$ 1,1 milhão foram desviados da conta do ilustre biólogo Ernst Wilhelm Graef, um correntista idoso, e depositados nas contas de Paulo Victor e de sua empresa, a DMP Comércio e Serviços.

Na contestação, a defesa de Paulo Victor tentou uma manobra inusitada: alegou que ele teria sido “ingênuo” ao emprestar suas contas bancárias a dois amigos de infância, Brenda e Ítalo, que, por coincidência, eram funcionária e gerente do próprio Santander na extinta agência do INPA, em Manaus. Segundo Paulo, ele apenas “intermediou” os valores para esses funcionários, acreditando tratar-se de dinheiro pessoal deles.
O Banco Santander, em réplica, encurralou o réu. A instituição argumentou que essa “ingenuidade” seria, na verdade, a confissão de um ato ilícito gravíssimo. Para o banco, receber mais de R$ 1 milhão de desconhecidos e pulverizar esse valor entre contas do C6, Bradesco e Banco do Brasil, além de realizar saques em espécie de quase R$ 150 mil, não é comportamento de quem está agindo de boa-fé, mas sim de quem opera uma “conta-laranja” essencial para o sucesso da fraude.
A estratégia de Paulo, inclusive a tentativa de mover o foro para Manaus, foi frustrada pela Justiça de São Paulo, que manteve o caso no estado onde o banco é sediado. A sentença condenatória foi implacável: a juíza não aceitou a tese de “amigo ludibriado” e reconheceu que, sem a conta de Paulo, o golpe não teria se concretizado. Desta forma, ‘Paulinho’ foi sentenciado a pagar R$ 675 mil, enquanto sua empresa, a DMP Comércio e Serviços, foi condenada a devolver R$ 500.050,00. Sobre esses valores, ainda deverão ser aplicados juros e correção monetária, que serão calculados com base na inflação e na taxa Selic. Para completar a derrota judicial, ele e sua empresa terão que arcar, juntos, com as despesas do processo e pagar honorários aos advogados do banco, fixados em 10% sobre o valor total da condenação.

A teia criminal: de Manaus ao Recife
O caso ganha gravidade com a operação da FICCO (Força Integrada de Combate ao Crime Organizado), que resultou na prisão de Paulo Victor em 8 de setembro de 2025, no bairro Parque 10, em Manaus. Flagrado com R$ 300 mil em dinheiro vivo e uma pistola Glock calibre .380, ele foi autuado por porte ilegal de arma e lavagem de dinheiro.

A investigação federal (processo nº 104XXXX-56.2025.4.01.3200) revelou que aquele flagrante era apenas a ponta de um iceberg:
- A “Harpia” como fachada: A empresa Harpia Solutions Ltda, utilizada por Paulo, não possui atividade econômica real. Dias antes da prisão, ele já havia sacado R$ 400 mil de uma conta vinculada a essa mesma firma.
- Conexão com o Crime Organizado: Fontes da investigação apontam que o fluxo de capitais gerido por Paulo Victor teriam fortes indícios de ligação com facções voltadas ao tráfico internacional de drogas, tornando o caso uma prioridade da PF e forças estaduais.
- O “rastro” em outros estados: A Harpia Solutions também é o ponto comum em denúncias de sobrepreço na prefeitura do Recife, onde o superfaturamento na compra de ar-condicionados teria gerado um rombo de R$ 805 mil.
Embora Paulo Victor tenha ganhado a liberdade em menos de 48 horas após pagar fiança de R$ 75,9 mil, recurso este depositado via Amazon Empreendimentos Ltda, outra firma supostamente ligada ao seu núcleo político, ele segue sob rígidas medidas cautelares e monitoramento.

O duelo de “tetos de vidro” e a sombra de Alessandra Campêlo
A ofensiva antecipada de Roberto Cidade contra Omar Aziz revela muito mais do que aparenta. Embora o senador ainda não tenha explorado publicamente o escândalo da família de “Vandex”, concentrando seu fogo na Operação Sangria (que atinge Wilson Lima) para tentar neutralizar as críticas sobre o seu próprio calcanhar de Aquiles, a Operação “Maus Caminhos”, a fala de Cidade soa como um recibo de preocupação.
Ao acusar Omar de agir como “superintendente da Polícia Federal” e garantir que ele “não vai prender ninguém”, o governador demonstra saber que o adversário já possui a munição que atinge o seu núcleo duro. E a peça-chave nesse xadrez político tem nome: Alessandra Campêlo.
Ex-aliada de primeira hora e figura que detinha extrema proximidade com a família do governador, a deputada rompeu com Cidade e migrou para o grupo que o próprio mandatário hoje classifica como a “velha política”. Nos bastidores, a leitura é clara: ao mudar de trincheira, Alessandra levou consigo o mapa dos esqueletos no armário do grupo governista, o que fatalmente inclui o conhecimento interno sobre as operações e os embaraços envolvendo Paulo Victor, a família de Vandex e a prima do governador.











