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Rioprevidência expôs patrimônio de 235 mil aposentados com aporte de quase R$ 1 bilhão no Banco Master, diz PF

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Rioprevidência expôs patrimônio de 235 mil aposentados com aporte de quase R$ 1 bilhão no Banco Master, diz PF

Brasil – A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (23 de janeiro de 2026) a Operação Barco de Papel, que investiga suspeitas de irregularidades graves na gestão de recursos do Rioprevidência, o fundo de previdência dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro. A ação mira aportes de quase R$ 1 bilhão em títulos emitidos pelo Banco Master, instituição financeira liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025, e expõe preocupações sobre a segurança das aposentadorias e pensões de cerca de 235 mil beneficiários.

O cerne da investigação

De acordo com informações divulgadas pela Polícia Federal, a operação apura nove operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024. Nessas transações, o Rioprevidência aplicou aproximadamente R$ 970 milhões em Letras Financeiras (LFs) emitidas pelo Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro.

Esses títulos, de longo prazo (com vencimentos previstos para 2033 e 2034), concentram recursos significativos em um único emissor, contrariando princípios fundamentais de diversificação, liquidez e prudência exigidos pela legislação para fundos de regime próprio de previdência. A auditoria da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social, que deu origem ao inquérito em novembro de 2025, classificou as aplicações como de “risco elevado” e incompatíveis com a finalidade previdenciária do fundo.

Alvos e mandados

Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, expedidos pela 6ª Vara Federal Criminal. Entre os alvos estão:

– Deivis Marcon Antunes, atual diretor-presidente do Rioprevidência;
– Eucherio Lerner Rodrigues, ex-diretor de investimentos;
– Pedro Pinheiro Guerra Leal, ex-diretor de investimentos interino (exonerado em dezembro de 2025);
– A própria sede da autarquia.

A PF investiga possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo gestão fraudulenta, desvio de recursos, indução em erro de repartição pública, fraude à fiscalização ou ao investidor, associação criminosa e corrupção passiva.

Alertas prévios ignorados?

O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) já havia emitido alertas repetidos sobre a exposição do fundo ao conglomerado Master. Em outubro de 2025, o TCE determinou tutela provisória proibindo novas transações com o banco ou instituições que não atendessem critérios mínimos de solidez. Relatórios apontavam que, até julho de 2025, cerca de R$ 2,6 bilhões (quase 25% do patrimônio investido) estavam vinculados a ativos ligados ao Master — valor que, segundo algumas fontes, chegaria a R$ 1,2 bilhão apenas no caso do Rioprevidência.

Um dos exemplos mais criticados foi o aporte superior a R$ 1 bilhão no Arena Fundo de Investimento, administrado por corretora ligada ao Master. O fundo teve o Rioprevidência como único cotista e entregou rentabilidade inferior à poupança e muito abaixo do CDI, configurando, segundo técnicos, ausência de vantajosidade econômica.

Conexões com outros escândalos

Parte dos recursos aplicados pelo Rioprevidência transitou por fundos que financiaram a compra de ações da Ambipar, empresa de serviços ambientais que entrou em recuperação judicial. Em um único caso, R$ 150 milhões investidos via fundo Texas I (administrado pelo Master) desvalorizaram para cerca de R$ 17 milhões, gerando prejuízo estimado em R$ 133 milhões.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga suspeitas de manipulação de mercado e conluio envolvendo o empresário Nelson Tanure, Daniel Vorcaro e outros atores para inflar artificialmente o preço das ações da Ambipar antes da queda. O caso também se conecta à Operação Compliance Zero, que tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro Dias Toffoli.

Impacto nos aposentados e o que vem pela frente

Com a liquidação do Banco Master, as Letras Financeiras não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que coloca em risco efetivo boa parte dos recursos. O Rioprevidência informou, em posicionamentos anteriores, que negociava a substituição desses papéis por precatórios federais, mas o sucesso dessa operação ainda é incerto.

Enquanto isso, 18 fundos de previdência de estados e municípios (totalizando cerca de R$ 1,8 bilhão em aplicações no Master) enfrentam o mesmo dilema. O governo federal já sinalizou que não pretende socorrer os regimes próprios, deixando o ônus para os cofres estaduais e municipais — o que pode pressionar ainda mais as contas públicas e, indiretamente, os próprios aposentados.

A Operação Barco de Papel é apenas mais um capítulo do escândalo que abalou o mercado financeiro brasileiro em 2025. Resta saber se as investigações trarão responsabilização efetiva ou se, mais uma vez, o prejuízo ficará concentrado nos ombros dos servidores que confiaram na gestão de seu futuro previdenciário.


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