Amazonas – Vídeos do interrogatório pós-prisão expõem o que parece ser uma nova manobra utilizando a estrutura de segurança do Estado do Amazonas para fins políticos. O tenente-coronel Jackson Ribeiro dos Santos, figura central do escândalo conhecido como “QG do Crime” nas eleições de Parintins em 2024, foi flagrado conduzindo um questionamento indutivo com suspeitos de um atentado. O objetivo claro da ação nas imagens era fabricar uma narrativa que ligasse a facção criminosa Comando Vermelho (CV) ao atual candidato ao Governo do Amazonas, David Almeida (Avante), que é o principal adversário de Roberto Cidade (União Brasil).
Suspeito: Falar a real pra você… não pode ter campanha no bairro, entendeu doutor?
Interrogador: Não pode?
Suspeito: Pode.
Interrogador: De quem que pode? Do Roberto Cidade não pode, mas e dos outros pode ter?
Suspeito: Só… só do Roberto Cidade que não podia ter lá.
Interrogador: Só não pode do Roberto Cidade. E do Wilson Lima?
Suspeito: Do Wilson Lima… aí também não, não tem nada de Wilson Lima.
Interrogador: Não pode? Mas se for do David, pode?
Suspeito: Do David também não… não, David também não, doutor. A gente não tinha feito nada de campanha não, doutor.
Interrogador: Ah, tinha feito também não? Não pode ter nenhuma?
Suspeito: Não é que não pode ter nenhuma, doutor, porque não podia ter arruaça de campanha aí do Roberto Cidade, porque tava… só isso.
Interrogador: A do Roberto Cidade é de quem? A do Wilson Lima? A do Roberto Cidade e do Wilson Lima não pode ter. É ordem do tráfico. É isso? E vocês acham que mandam em alguma porra. Vocês acham que mandam em alguma porra. Vocês são buceta, rapaz. Quem que mandou?
O interrogatório ocorreu após a prisão de Guilherme Herculano Andrade e Eduardo Souza da Costa, suspeitos de balear um capitão da PM no bairro Novo Israel, ocorrido na última quinta-feira (4/8) durante a segurança precursora para um comício de Roberto Cidade. Durante a gravação, o tenente-coronel Jackson pressiona de forma incisiva um dos detidos para relacionar a ordem da facção estaria relacionada além com as campanhas de Roberto Cidade e Wilson Lima, com a de David Almeida. A tática de coação buscava forçar o suspeito a declarar que outros políticos teriam ou não passe livre nas áreas dominadas pelo tráfico, isolando os rivais eleitorais.
A presença do tenente-coronel Jackson Ribeiro na condução desse interrogatório ganha contornos de escândalo devido ao seu histórico recente e retorno ao poder. Documentos do Diário Oficial de 15 de junho de 2026 revelam que o oficial foi nomeado para o cargo de Chefe de Departamento na Casa Militar, com efeitos retroativos a 1º de junho, em decreto assinado pelo governador Roberto Maia Cidade Filho. O passado do militar remonta ao “QG do Crime”, um esquema denunciado onde secretários e comandantes da PM foram filmados planejando operações policiais forjadas e o uso da máquina estatal nas eleições de Parintins para beneficiar o grupo de Roberto Cidade.
O escândalo de aparelhamento de 2024 motivou a Operação Tupinambarana Liberta, deflagrada pela Polícia Federal, que realizou buscas em endereços da alta cúpula do governo. Diante da pressão na época, o governo exonerou Fabrício Rogério Cyrino Barbosa (Secretário de Administração), Marcos Apolo Muniz de Araújo (Secretário de Cultura), Armando Silva do Valle (Presidente da Cosama), além do tenente-coronel Jackson Ribeiro dos Santos (então Comandante da Rocam) e do capitão Guilherme Navarro Barbosa Martins. O reaparecimento de Jackson em vídeos recentes conduzindo interrogatórios direcionados sugere que as práticas ilícitas do interior foram importadas para a capital amazonense nesta nova corrida eleitoral.