PF consegue acessar mensagens de visualização única no celular de Vorcaro; veja vídeo
Brasil – A Polícia Federal (PF) obteve acesso técnico a registros de mensagens enviadas no modo de “visualização única” do WhatsApp que estavam armazenadas no celular apreendido do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Vorcaro, preso preventivamente em novembro de 2025 durante a primeira fase da Operação Compliance Zero e novamente em março de 2026, utilizava um método sofisticado para tentar eliminar rastros de suas conversas sensíveis. Segundo apurações jornalísticas baseadas em fontes da investigação, o empresário redigia textos no bloco de notas do próprio celular, capturava a tela (print) e enviava essas imagens pelo WhatsApp ativando a função de visualização única — recurso que faz o arquivo se autodestruir após ser aberto uma vez pelo destinatário, impedindo capturas de tela ou salvamento pelo receptor.
O esquema, aparentemente pensado para evitar registros permanentes, foi aplicado em diálogos ocorridos em 17 de novembro de 2025, dia da primeira prisão de Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos. Entre as mensagens enviadas por ele constam relatos de tentativas de salvar o Banco Master por meio de negociações de venda e uma pergunta explícita: “Conseguiu bloquear?”. Horários de anotações no bloco de notas coincidem com os envios, reforçando a tese de que o conteúdo era preparado com antecedência.
O ponto crucial da novidade técnica está na extração forense realizada pela PF. Especialistas da corporação utilizaram software pericial capaz de recuperar e exibir simultaneamente a interface do WhatsApp e os arquivos temporários enviados em modo de visualização única, mesmo após o “desaparecimento” aparente no aplicativo. Essa capacidade permitiu à equipe de investigação visualizar o histórico de envios, incluindo metadados como horários, contatos e, em alguns casos, o próprio conteúdo das imagens antes da autodestruição.
Embora as mensagens enviadas por Vorcaro tenham sido recuperadas dessa forma, as respostas recebidas — atribuídas por parte da imprensa a um contato ligado ao ministro Alexandre de Moraes, do STF — permaneceram inacessíveis no aparelho do banqueiro, já que o recurso de visualização única também apaga o arquivo do remetente após a abertura. O ministro negou categoricamente, por meio de nota oficial, que as mensagens específicas sobre o Banco Master tenham sido dirigidas a ele, afirmando que análise técnica dos dados telemáticos mostrou vinculação dos prints a outros contatos na pasta de arquivos do celular de Vorcaro.
A controvérsia ganhou força após reportagem do jornal O Globo afirmar que o número associado a Moraes respondeu quatro vezes com imagens de visualização única e emojis de aprovação, informação contestada pelo gabinete do magistrado. Fontes próximas à PF indicam que, até o momento, não há indícios de conduta ilícita por parte do ministro nos diálogos identificados.
A recuperação desses registros reforça o avanço das ferramentas de perícia digital da Polícia Federal, que vêm superando mecanismos de privacidade introduzidos por aplicativos de mensagens. No entanto, especialistas em direito digital alertam para o risco de precedentes perigosos: se a visualização única pode ser contornada em extrações forenses locais (no próprio aparelho), isso questiona a efetividade do recurso como garantia de sigilo absoluto.
O caso Vorcaro segue rendendo desdobramentos na CPMI do INSS, na Justiça Federal e no Supremo Tribunal Federal. A defesa do banqueiro já pediu providências sobre supostos vazamentos de dados do celular, incluindo conversas classificadas como íntimas. Enquanto isso, a PF continua analisando terabytes de informações extraídas dos aparelhos apreendidos, em busca de elementos que comprovem ou descartem a existência de uma rede mais ampla de influência e favorecimento no sistema financeiro nacional.



