“O maior caso de pedofilia dentro do jiu-jitsu mundial”: três professores foram presos por crimes sexuais no Amazonas

Amazonas – O esporte amazonense enfrenta um de seus momentos mais sombrios e estarrecedores. Em menos de três anos, três professores de jiu-jítsu foram presos por suspeita de cometer crimes sexuais contra seus próprios alunos no Amazonas. Os casos ganharam ampla repercussão nacional, revelando um padrão de manipulação psicológica, exploração de vulnerabilidade financeira e abuso de poder hierárquico dentro dos tatames.
O caso Alcenor Soeiro e o alerta dos campeões mundiais
A sequência de denúncias que quebrou o silêncio no esporte teve um marco em novembro de 2024, com a prisão de Alcenor Alves Soeiro, de 56 anos, capturado em Balneário Camboriú (SC). Ele é investigado por estuprar e explorar sexualmente alunos entre 2011 e 2018.
As investigações vieram à tona após atletas de renome, incluindo campeões mundiais, procurarem a Polícia Civil. O advogado Vilson Benayon, que atua como assistente de acusação, destacou a gravidade da situação e o absurdo da defesa inicial do acusado:
“Ele, ao invés de confessar o crime… atribuiu a culpa às crianças, aos menores, dizendo que ele foi seduzido pelas crianças. Isso é um absurdo! O maior caso de pedofilia dentro do jiu-jitsu mundial. Esse caso, por exemplo, começou com uma denúncia do Mateus Gabriel, do Ari, do Thalisson e entre outros, todos campeões mundiais que foram treinados pelo Alcenor.”
Segundo Benayon, o processo já está concluso para sentença, com expectativa de uma condenação exemplar e banimento definitivo do esporte.
Os relatos das vítimas de Alcenor são brutais. Segundo a polícia e os depoimentos, o treinador dopava as crianças com melatonina durante as viagens para competições. Um dos atletas, hoje com 23 anos, relatou o pesadelo: “Acordávamos com o pênis dolorido, sem saber o que tinha acontecido”. Pelo menos 12 vítimas já foram identificadas formalmente.
Abusos no interior: Prisão em Humaitá
O avanço das investigações encorajou outras denúncias pelo estado. Em junho de 2025, um outro professor de jiu-jítsu foi preso na cidade de Humaitá, no interior do Amazonas.
Desta vez, as vítimas eram ainda mais jovens: ao menos cinco meninos com idades entre 7 e 11 anos. A Polícia Civil apontou que os crimes de estupro de vulnerável aconteciam dentro da própria academia, que funcionava na residência do investigado, para onde ele frequentemente convidava os alunos para dormir.
A queda de Melqui Galvão: A cobrança pelos “investimentos”
O caso mais recente e de enorme impacto midiático ocorreu em abril de 2026 com a prisão de Melqui Galvão. Conhecido nacionalmente não apenas como mestre de jiu-jítsu e formador de campeões, mas também como investigador e instrutor de defesa pessoal da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), Galvão foi preso após denúncias de abusos contra alunas.
O caso foi inicialmente revelado por uma adolescente de 17 anos que relatou atos libidinosos durante uma viagem internacional para competições. Após a quebra de sigilo do caso, a GloboNews mapeou pelo menos sete vítimas. Uma delas é a atleta Brenda Larissa, de 27 anos, que relatou 14 anos de violência sexual e psicológica.
Brenda revelou a tática cruel utilizada pelo treinador para justificar os abusos: a dívida financeira.
“Ele pagava a inscrição de campeonato, dava quimono. A gente não tinha dinheiro para nada, muitas vezes nem para comer. Quando ele foi me abusar, ele falou que eu tinha que pagar todo o tempo que ele estava investindo em mim e que aquilo não era de graça,” relatou a lutadora, que também descobriu recentemente que sua irmã mais nova foi vítima do mesmo agressor.
Melqui Galvão foi transferido do Amazonas para o Presídio da Polícia Civil em São Paulo, onde o inquérito é conduzido pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Ele também foi afastado cautelarmente de suas funções na PC-AM.
Cenário nacional e a quebra do silêncio
A coragem dos atletas amazonenses em denunciar tem gerado um efeito cascata em todo o país, trazendo à tona casos antigos que permaneciam impunes. Um exemplo é o de André Luís Siqueira Pinheiro, o “André Motoca”, condenado a 15 anos de prisão pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por abusar de uma aluna de 15 anos entre 2015 e 2016. Após a condenação transitar em julgado, o mandado de prisão foi expedido em março de 2025, mas Motoca segue foragido.
As autoridades e advogados envolvidos nos casos são unânimes no apelo: a quebra do silêncio é a única arma para higienizar o esporte e proteger as novas gerações de atletas. Crianças e adolescentes precisam de proteção redobrada, e os pais, como alertado pelo advogado do caso Alcenor, não devem jamais delegar integralmente a educação e a vigilância de seus filhos a terceiros, mesmo que sejam figuras de autoridade esportiva.








