Megaoperação contra a Refit: bloqueio de R$ 10,2 bilhões e sonegação de R$ 26 bilhões envolvem família de Ricardo Magro
Brasil – Uma das maiores ações fiscais da história recente do Brasil atingiu em cheio o Grupo Refit, dono da antiga Refinaria de Manguinhos (Rema), no Rio de Janeiro. Nesta quinta-feira (28), Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e polícias civis de cinco estados e do Distrito Federal cumpriram 126 mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao empresário Ricardo Magro, apontado como o maior devedor contumaz de impostos do país. A Justiça determinou o bloqueio imediato de R$ 10,2 bilhões em bens – incluindo imóveis, veículos de luxo e cotas de empresas – além de mais R$ 1,2 bilhão em ações movidas pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Segundo os investigadores, o esquema de fraude fiscal estruturada causou prejuízo superior a R$ 26 bilhões a União e estados entre 2020 e 2025, com destaque para débitos de ICMS em São Paulo, onde a Refit lidera o ranking de inadimplentes. A organização é suspeita de crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro, associação criminosa e concorrência desleal.
A engrenagem da fraude
O núcleo do esquema, segundo o Gaeco-SP e a Receita Federal, consistia em importar nafta, diesel e outros derivados de petróleo (mais de R$ 32 bilhões no período) por meio de empresas de fachada, sem recolher o ICMS devido na entrada da mercadoria. As distribuidoras do grupo vendiam o combustível com preço abaixo do mercado, enquanto novas empresas eram criadas e abandonadas com dívidas fiscais bilionárias – prática conhecida como “devedor contumaz seriado”.
Para blindar o patrimônio e dificultar o rastreamento, o grupo montou uma teia de 17 fundos de investimento exclusivos (patrimônio somado de R$ 8 bilhões), offshores em Delaware (EUA) e uma exportadora em Houston que movimentou R$ 12,5 bilhões. Uma grande operadora financeira, sócia de instituições que prestavam serviços à Refit, movimentou R$ 72 bilhões em um único ano, segundo a Receita.
“É uma triangulação internacional gravíssima”, classificou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao comentar o uso de empresas americanas que garantem anonimato e isenção tributária local.
Nas buscas, foram encontrados R$ 2 milhões em espécie, oito sacolas de esmeraldas brutas (R$ 90 mil) e documentos que comprovam a origem das pedras.
Conexões com PCC e operações anteriores
A Refit já havia sido alvo da Operação Carbono Oculto (agosto de 2025), que investigou lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado de combustíveis, e da Cadeia de Carbono, que reteve quatro navios do grupo e chegou a interditar temporariamente a refinaria de Manguinhos.
Nomes de peso na mira
Além de Ricardo Magro – que vive em Miami – e de seu pai, João Manuel Magro, foram alvos:
– Um dos filhos do empresário;
– O influenciador e comentarista da Jovem Pan Cristiano Beraldo, apontado como gestor de offshores que, na verdade, pertenceriam a Ricardo Magro (Cascais Bay LLC e Oceana KB Real Estate LLC). Beraldo, ex-secretário de Turismo do Rio na gestão Eduardo Paes e candidato a deputado estadual em 2022, divulgou vídeo afirmando estar “surpreso” e anunciou afastamento temporário de atividades políticas;
– Jonathas Assunção, ex-secretário-executivo da Casa Civil no governo Bolsonaro, ex-chefe de gabinete do general Braga Netto e testemunha de defesa do ex-presidente em processos judiciais.
O que diz a Refit
Em nota, o grupo afirmou que os débitos “estão sendo questionados judicialmente, como fazem inúmeras empresas brasileiras que divergem de cobranças tributárias”. A empresa negou tentativa de ocultação de receitas ou fraude e classificou a disputa como “legítima”.
Reação política
A operação reacendeu o debate sobre o PL do Devedor Contumaz no Congresso. Lideranças de esquerda pressionam pela votação urgente do projeto, que endurece punições a empresas que sistematicamente deixam de recolher ICMS. “Não temos tempo a perder”, declarou o deputado Zeca Dirceu (PT-PR), autor do texto que tramita desde 2019.
Com bens bloqueados em valor recorde e investigações que se estendem a quatro continentes, o caso Refit expõe, mais uma vez, como redes sofisticadas de blindagem patrimonial e planejamento tributário agressivo podem drenar bilhões dos cofres públicos – e por quanto tempo o sistema brasileiro demora para reagir.


