Hacker negocia delação sobre invasão de dispositivos e grampos ilegais na Polícia Civil
Brasil – O cenário da segurança pública de São Paulo enfrenta acusações graves com o avanço das negociações de um acordo de colaboração premiada entre o Ministério Público Federal (MPF) e o hacker Patrick Brito. Atualmente foragido na Sérvia, Brito promete detalhar um suposto esquema de invasão de dispositivos e grampos ilegais que teria sido operado por policiais civis paulistas. O objetivo dos agentes seria obter provas de maneira ilícita para embasar inquéritos oficiais, subvertendo o devido processo legal.
A cooptação do hacker teria começado no início de 2021, após ele ser preso em Araçatuba por invadir o celular do então prefeito da cidade. Segundo os relatos do próprio investigado, o delegado Carlos Henrique Cotait teria oferecido um acordo extraoficial na sede da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic). Em troca de ter sua situação aliviada no inquérito, Brito deveria usar suas habilidades para ajudar a equipe a acessar dados de outros alvos. O hacker afirma ter aceitado a proposta, deixando a delegacia com seu passaporte devolvido e dez mil reais em espécie.
A partir desse momento, Brito alega ter passado a atuar sob demanda para os policiais, colaborando à distância após se mudar para a Europa. Ele relata que recebia pagamentos por meio de envelopes deixados na casa de sua mãe ou por transferências bancárias. Como prova dessa relação financeira, a defesa do hacker anexou aos inquéritos o comprovante de um depósito feito pela investigadora Cindy Orsi Nozu, apontada como braço direito do delegado, para a conta da avó de Brito. Em áudios interceptados, a policial justificou a transferência alegando ter agido por “dó”, pois o rapaz estaria passando necessidades e dormindo na rua.
O caso começou a ser desvendado a partir dos desdobramentos da Operação Raio-X. Seguindo supostas determinações do delegado Cotait, Brito invadiu o celular do médico Franklin Cangussu Sampaio, figura ligada ao ex-governador e atual ministro Márcio França. Capturas de tela entregues aos procuradores mostram a investigadora Cindy, que hoje é delegada da Polícia Federal, orientando o hacker a levantar o máximo de informações possíveis. O objetivo explícito nas mensagens era fundamentar um pedido de prisão contra o médico para forçá-lo a delatar França, chegando a sugerir que o hacker invadisse diretamente os dispositivos do político.
A operação clandestina, no entanto, ruiu quando o próprio hacker passou a extorquir o médico cujos dados haviam sido roubados. Desconfiado do envolvimento dos policiais que haviam apreendido seu celular anteriormente, Cangussu registrou uma denúncia na Divisão de Crimes Cibernéticos. Isso deu início às apurações sobre a conduta da equipe de Araçatuba e levou os policiais a tentarem culpar um outro agente pelos vazamentos.
Enquanto o Ministério Público Federal demonstrou interesse na delação e conduz dois inquéritos sob sigilo na 5ª Vara Federal de Santos, a esfera estadual seguiu um caminho diferente. Apesar das promessas de rigor do secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, a Corregedoria-Geral da Polícia Civil de São Paulo arquivou o último procedimento interno que investigava os agentes. O órgão alegou que as acusações eram infundadas e baseou-se em apurações preliminares anteriores, sem realizar novas diligências ou convocar testemunhas-chave indicadas pelo hacker.
A procuradoria federal, por sua vez, cobrou o resultado de perícias técnicas para atestar a autenticidade dos mais de setenta documentos apresentados por Brito, indicando a possível participação de outros policiais no esquema. O delegado Carlos Henrique Cotait negou veementemente as acusações, afirmou que o hacker está mentindo e classificou as conversas apresentadas como montagens, ressaltando que nenhuma investigação conseguiu provar seu envolvimento nas irregularidades.


