Grupo sancionado pelo Tesouro dos EUA lavou dinheiro usando “Pix americano”

Mundo – A Polícia Federal (PF) brasileira desarticulou uma sofisticada engrenagem financeira operada pelo grupo de Victor Henrique de Oliveira Shimada. Sancionado recentemente pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), o grupo encontrou uma brecha inusitada para lavar dinheiro de origem ilícita: o Zelle, plataforma de transferências digitais conhecida como o “Pix americano”.
A descoberta joga luz sobre um temor antigo das autoridades brasileiras. Havia o receio de que o uso do Pix por membros de facções criminosas pudesse atrair sanções ao sistema do Banco Central do Brasil, uma vez que o PCC e o Comando Vermelho foram classificados pelos EUA como organizações narcoterroristas. No entanto, a investigação revela que a criminalidade já se apropriou da infraestrutura do próprio sistema financeiro norte-americano.
O que é o Zelle?
Diferentemente do Pix, que é gerido pelo Banco Central brasileiro, o Zelle é uma rede privada criada em 2016. A plataforma é administrada pela Early Warning Services, uma empresa controlada por gigantes do mercado bancário dos Estados Unidos, entre eles:
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Bank of America
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JPMorgan Chase
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Wells Fargo
O Modus Operandi da Quadrilha
De acordo com os relatórios da PF, o Zelle era uma peça fundamental na lavagem de capitais do grupo de Shimada, facilitando a ocultação e a remessa de valores internacionais. O esquema envolvia diversos operadores com funções específicas:
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Leandro Proença: Egresso do sistema prisional e parceiro direto de Shimada. Era o responsável por movimentar criptoativos, dinheiro em espécie e operacionalizar remessas para os EUA. Mensagens interceptadas mostram Leandro coordenando transferências via Wells Fargo e Zelle.
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Ivan Moreira Brasil: Sócio-administrador da empresa de fachada Ibra Administração e Representação LTDA. Um e-mail associado a ele (
Ivanbrasil49@gmail.com) era utilizado para gerenciar uma conta no Zelle, indicando que os valores iam para o exterior por meio de contas controladas pelo próprio grupo. -
Ygor Fokin Saviolli: Outro parceiro operacional, encarregado de usar o Zelle para o pagamento direto de drogas. Em junho de 2022, a polícia documentou um depósito de US$ 10.002 feito por ele via Zelle para uma conta no Bank of America pertencente a um terceiro.
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Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira: Secretária e colaboradora direta de Shimada, responsável por organizar a logística de recolhimento de dinheiro vivo.
Sanções Inéditas e a Conexão com o Futebol Brasileiro
A operação ganhou contornos de diplomacia internacional quando o Departamento do Tesouro dos EUA sancionou Shimada, Stella e quatro empresas ligadas ao grupo — incluindo a Victory Trading e a portuguesa Avenidas Flutuantes. Foi a primeira vez que os Estados Unidos aplicaram sanções diretas por vínculos com o PCC desde que a facção foi designada como organização terrorista pelo país. A medida congela ativos nos EUA e proíbe cidadãos e empresas norte-americanas de negociarem com os alvos.
O Escândalo Vai de Bet no Corinthians:
A Victory Trading não é uma novidade no noticiário policial brasileiro. A empresa, pertencente a Shimada, é alvo central na investigação de lavagem de dinheiro que envolve o contrato de patrocínio da casa de apostas Vai de Bet com o Corinthians. Em janeiro de 2025, Shimada chegou a ser preso pela PF sob a acusação de lavar recursos do clube paulista através de um esquema de fraudes publicitárias, repassando cerca de R$ 200 mil para empresas suspeitas de pertencerem a “laranjas”, como a Neoway Soluções.
O que diz a defesa
Em nota, a defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada afirmou que ainda não teve acesso aos documentos oficiais que embasaram as sanções do governo norte-americano, o que impede uma manifestação mais detalhada no momento.
“Não obstante, Victor Shimada nega veementemente qualquer envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro. A situação será analisada com a cautela e a profundidade que o caso exige, após o efetivo acesso aos documentos que embasaram a medida e em conjunto com os profissionais que atuarão perante as autoridades competentes”, declarou a equipe jurídica.
Até o fechamento desta matéria, as defesas dos demais citados na investigação não foram localizadas.


