Caso Victória: mãe denuncia morte da filha de 3 anos por superdosagem de insulina e fenitoína no HPS Joãozinho, em Manaus; veja vídeo

Manaus – A foto impressa em um grande banner mostra uma menina de apenas três anos e sete meses, sorridente, vestindo uma blusa da Minnie Mouse. O nome dela era Victória. Para sua mãe, a socorrista e estudante Monalisa Marques Oliveira, a inocência dessa imagem contrasta de forma dilacerante com o pesadelo vivido nos últimos dias de vida da criança. O que deveria ser um atendimento emergencial de rotina para controlar o diabetes da pequena Victória transformou-se em uma sucessão de horrores, humilhações e negligência médica dentro do Hospital e Pronto-Socorro da Criança Joãozinho, na Zona Leste de Manaus.
Hoje, munida de documentos oficiais, laudos e um luto que se transformou em motor de luta, Monalisa denuncia não apenas um erro, mas o que ela descreve como um “matadouro de crianças”. Acompanhe entrevista exclusiva ao CM7 realizada nesta quarta-feira (3/6) que a mãe da criança realizou no HPS Joãozinho:
O Início do Pesadelo: A Luta por Prioridade
A tragédia teve início no dia 25 de maio de 2025. Após ingerir acidentalmente um xarope doce, Victória, que além de diabética era autista, acordou pálida e gritando. A medição em casa foi alarmante: a glicose marcou 420 mg/dL, configurando um quadro grave de cetoacidose diabética.
Ao chegar ao Hospital Joãozinho, o desespero de uma mãe colidiu com a frieza do sistema. Mesmo com a glicose altíssima, o caso foi classificado como “não grave” na triagem. O crachá de identificação de autismo foi ignorado. A criança só recebeu atenção quando seu corpo não aguentou mais e ela desmaiou, cianótica, na recepção lotada.
“Eles negligenciaram a gente desde a entrada. Não colocaram que ela era autista, não colocaram que ela era diabética. Deixaram a gente jogada na recepção até a minha filha desmaiar” — relata Monalisa, com a voz embargada pela dor.
Maus-tratos e Frieza na Sala de Reanimação
Quando a mãe finalmente conseguiu entrar na sala de reanimação, após duas horas de angústia no corredor, deparou-se com uma cena desumana. Victória estava suja de vômito e com as mãos e os pés amarrados com ataduras na maca. Segundo Monalisa, a contenção era totalmente desnecessária, pois a filha, descrita como uma criança meiga e sem força física devido à condição clínica, não apresentava nenhum risco.
A dor de ver a filha amarrada foi agravada pela atitude da equipe médica. Profissional da área de saúde, Monalisa questionava os procedimentos, apenas para ser chamada de “louca”, ridicularizada e humilhada por técnicas de enfermagem e médicas que, segundo a denúncia, debochavam de sua preocupação. O descaso chegou ao ponto de uma profissional reclamar da presença da criança na reanimação porque a médica de plantão “queria um plantão tranquilo”.
A Sucessão de Erros Fatais
Os documentos policiais e médicos registrados por Monalisa desenham uma linha do tempo estarrecedora de imperícia:
- Ignorando Alergias Graves: Na reanimação, Victória teve uma forte reação alérgica a um medicamento chamado Fenitoína, e o uso foi suspenso. No entanto, ao ser transferida para a UTI, uma outra médica prescreveu e administrou exatamente a mesma medicação, de 8 em 8 horas, ignorando o histórico recente do prontuário.
- A Superdosagem de Insulina: No dia 27 de maio, a criança, já exausta, fez seu último pedido: “Mãe, eu quero um pão”. Pouco tempo depois, teve uma nova convulsão. A prescrição médica indicava um máximo de 8 unidades de insulina para corrigir a glicemia. Um técnico de enfermagem, no entanto, aplicou 14 unidades (10 em um braço e 4 no outro), ignorando os alertas desesperados da mãe.
- O Colapso: Minutos após a superdosagem, Victória sofreu uma parada cardiorrespiratória. O excesso de insulina em uma criança daquela idade provocou um dano irreversível.
A Frieza do Fim e o Peso dos Documentos
Nos dias que se seguiram na UTI, a menina foi deixada em condições insalubres. A mãe a encontrou sem banho, com curativos vencidos, sondas e tubos de ventilação sujos de sangue e exalando mau cheiro. O hospital, segundo o relato, não possuía nem sequer lancetas ou fitas para medição de glicose em crianças.
Victória teve morte cerebral constatada e seu óbito foi oficialmente registrado às 21h30 do dia 31 de maio de 2025. A Certidão de Óbito é contundente e confirma a denúncia da mãe. As causas da morte foram:
- Edema Cerebral
- Estado de Mal Convulsivo
- Hipoglicemia (queda drástica de açúcar, corroborando a superdosagem de insulina)
- Intoxicação Exógena (intoxicação por agentes externos/medicamentos)
A Justiça Tarda, Mas Não Pode Falhar
Abala e sentindo-se inicialmente culpada, Monalisa levou meses para encontrar forças. Amparada pelo coletivo “Mães por Justiça”, ela transformou sua dor em um inquérito policial (BO Nº 00107634/2026) que investiga os profissionais por Homicídio Culposo.
A gravidade do caso levou o Poder Judiciário do Estado do Amazonas a expedir uma Ordem de Serviço para a exumação do corpo da pequena Victória, agendada para o dia 29 de maio de 2026. O procedimento busca materializar as provas químicas e físicas da negligência que ceifou sua vida.
Hoje, na porta do mesmo hospital onde viu sua filha morrer, Monalisa não pede compaixão; ela exige que a lei seja cumprida. Sua luta solitária e corajosa ecoa o medo de milhares de famílias amazonenses que dependem do sistema público de saúde.
“Eu vou lutar até o fim para que esses profissionais saiam daí e não continuem mais matando crianças. Se eu estou aqui, não é por mídia. Estou aqui pedindo justiça pela Victória.”
O sorriso da menina no banner continuará sendo erguido. Não apenas como uma lembrança do que foi perdido, mas como um lembrete inegável de que o sistema falhou com Victória, e que, enquanto não houver responsabilização, poderá falhar com o filho de qualquer outra pessoa.













