Caso Lucila Costa: falsa advogada que morreu antes de delação do CV atuou como assessora de políticos do AM

Brasil – A morte de Lucila Meireles Costa, de 42 anos, ocorrida na última sexta-feira (22), em Teresina (PI), encerrou de forma dramática a trajetória de uma mulher que transitou durante anos pelos bastidores da política amazonense e que, nos últimos meses, passou a ser apontada pela Polícia Civil do Amazonas como integrante de um suposto “núcleo político” ligado à facção criminosa Comando Vermelho.
Presa desde fevereiro deste ano no desdobramento da Operação Erga Omnes, Lucila ganhou notoriedade após as investigações revelarem que ela se passava por advogada para acessar informações sigilosas do sistema do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM). Segundo a polícia, ela utilizava de forma ilegal o token de uma advogada regularmente inscrita na OAB-AM para consultar processos e antecipar decisões judiciais e operações policiais de interesse da organização criminosa.
De acordo com a investigação, o esquema criminoso possuía uma estrutura organizada, dividida em núcleos operacional, financeiro e de apoio estratégico. Foi justamente nesse último eixo que o nome de Lucila passou a chamar atenção das autoridades, devido à sua circulação em ambientes políticos e ao acesso a informações consideradas sensíveis.
Antes de ser presa, Lucila acumulou passagens por gabinetes de figuras conhecidas da política amazonense. Ela atuou como assessora do vereador Rodrigo Guedes (PP), do ex-vereador Isaac Tayah (MDB), além de ter trabalhado com o ex-prefeito e ex-deputado Bi Garcia (PSD) e o falecido ex-deputado federal Arthur Bisneto.
A investigação que levou à prisão de Lucila teve origem após uma grande apreensão de drogas e armamentos realizada anteriormente pela Polícia Civil. Conforme os investigadores, foram apreendidos mais de 500 tabletes de maconha tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, embarcações utilizadas no transporte de drogas e veículos empregados na logística criminosa. O aprofundamento das apurações também identificou movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada dos investigados, com valores que poderiam alcançar cerca de R$ 70 milhões.
No momento da prisão, realizada no Centro de Teresina, a polícia apreendeu aparelhos eletrônicos, documentos, anotações e o token utilizado para acessar o sistema judicial amazonense. Lucila passou a responder por organização criminosa, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e violação de sigilo funcional.
Nos bastidores da investigação, havia expectativa de que Lucila pudesse firmar um acordo de delação premiada. Segundo informações apuradas, ela vinha mantendo tratativas iniciais para colaborar com a Justiça devido ao conhecimento que possuía sobre relações políticas e operacionais ligadas ao esquema investigado. O advogado procurado para conduzir a possível delação, no entanto, ainda não havia assumido oficialmente sua defesa.
A morte ocorreu enquanto ela estava custodiada na Penitenciária Feminina Gardênia Gomes Lima Amorim, em Teresina. Conforme a Secretaria de Justiça do Piauí (Sejus-PI), Lucila apresentava agravamento progressivo do estado de saúde desde sua entrada no sistema prisional. Ela era portadora de doenças crônicas, como hipertensão arterial e diabetes, fazendo uso contínuo de medicação.
Dias antes do óbito, a direção da unidade prisional encaminhou ofício à Defensoria Pública relatando um quadro psiquiátrico grave. Segundo o documento, Lucila apresentava pensamentos persecutórios, delírios, falas desconexas e acreditava que pessoas tentariam matá-la ou envenenar sua comida. A situação teria levado à recusa total de alimentação e líquidos, provocando perda significativa de peso.
Ainda conforme os registros da penitenciária, ela estava sob acompanhamento médico com hipótese diagnóstica de esquizofrenia paranoide e fazia uso de medicamentos psiquiátricos. A própria administração da unidade reconheceu oficialmente que não possuía estrutura adequada para oferecer o acompanhamento intensivo necessário ao caso.
O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que a morte ocorreu em decorrência de problemas de saúde pré-existentes. Após a confirmação do óbito, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) foi acionado para os procedimentos legais.
A morte de Lucila Meireles Costa acontece em um momento considerado sensível para as investigações da Operação Erga Omnes, que busca aprofundar possíveis conexões entre o crime organizado e setores políticos no Amazonas.








