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UE busca evitar que outros países sigam rumo de britânicos

BERLIM – Depois que a União Europeia (UE) perdeu um dos seus membros mais importantes anteontem, começou o debate sobre soluções em busca da superação da maior crise na história de quase 60 anos do bloco. Enquanto em Paris, Berlim ou Roma já teve início a discussão de como fica a UE agora, sobre as reformas para evitar que outros países sigam o exemplo dos britânicos, e sobre o aumento do peso da Alemanha, políticos do bloco passaram a exigir do Reino Unido saída imediata.

Num comunicado divulgado ontem, os presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, do Parlamento Europeu, Martin Schulz, e do Conselho Europeu, Donald Tusk, apelaram ao governo do Reino Unido para que apresentasse o requerimento de separação do bloco, “por mais doloroso que seja”, rapidamente. O objetivo para os outros 27 países do bloco — ainda em estado de choque diante da decisão do referendo — é formar logo um espírito de união, antes que os eurocéticos adotem o modelo britânico, concretizando a ameaça que já vinham fazendo — de forçar a saída dos seus países da UE.

— Não faz sentido esperar até outubro para tentarmos negociar os termos da saída. Gostaria de começar imediatamente — disse Juncker. — A UE buscará uma abordagem razoável. Não é um divórcio amigável, mas não era uma relação sólida de amor, de qualquer modo.

Reunião de emergência

Num dos momentos mais dramáticos desde a criação do bloco como Comunidade Econômica Europeia, em 1957, representantes dos países fundadores — Alemanha, França, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo — vão se encontrar em Berlim, hoje, em busca de soluções para a crise e de uma “união flexível”, como definiu o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. O debate deverá continuar numa cúpula de chefes de governo na terça-feira, mas já é alvo de críticas antes de começar. O presidente da Estônia, que faz parte da UE desde 2004, Toomas Hendrik Ilves, comentou no Twitter, referindo-se aos novos membros que não foram convidados para participar do encontro: “Mostrar unidade é algo diferente”.

A chanceler federal Angela Merkel, vista por alguns analistas como corresponsável pela vitória do Brexit, apelou à união (dos que ficaram). Segundo ela, a saída do Reino Unido foi “um golpe para a UE”. Para o cientista político inglês Hans Kundnani, do centro de estudos German Marshall Fund, de Londres, a política de refugiados de Berlim deu o último impulso ao Leave (de “sair”).

— Há uma semana, a política de refugiados (do governo alemão) foi tema de um cartaz que ajudou a convencer alguns que estavam ainda indecisos a votarem no Leave. Antes disso, o grupo do Remain (de “permanecer”) tinha uma leve vantagem — alega Kundnani.

Segundo ele, desde que ingressou no bloco, há 43 anos, o Reino Unido flertava com a separação. Por último, o aumento da imigração do Leste Europeu e da concorrência no mercado de trabalho e a subida nos aluguéis tornou o Brexit, para muitos britânicos das classes mais baixas, a perspectiva de uma vida melhor.

Um dia após o tremor que abalou o bloco, Alexander Graf Lambsdorff, do Partido Democrata Livre no Parlamento Europeu, afirmou que a UE precisa realizar uma discussão nos países-membros para salvar o projeto comum continental mais importante em um século.

— Precisamos de um debate amplo sobre como deve ser a UE do futuro — disse Lambsdorff.

Na sua opinião, o bloco deve deixar de “regular tudo”, até o grau de curvatura que deve ter um pepino, para se concentrar nas suas atividades mais importantes — as políticas econômicas e de segurança. A nova UE, acredita, deve ser mais democrática, permitir uma participação maior dos seus integrantes e deixar de ser um grupo elitista.

— Os países-membros pequenos devem ter mais poder, como era na época do chanceler Helmut Kohl (1983-1998). Ele dava aos países pequenos a sensação de que também os seus votos e suas opiniões eram importantes — concluiu.

sem espírito de vingança

Mas a nova UE dos 27 que sobraram já começa com um potencial de conflito. Sem Londres, Berlim cresce em importância, mas precisa fazer de conta de que o seu papel é mais humilde, mesmo que nas crises adote um tom autoritário, como a política de austeridade, tão odiada pelos países mais afetados.

— Uma possível saída seria o refortalecimento do eixo Paris-Berlim. Mas também essa opção seria acompanhada de problemas: François Hollande e Angela Merkel têm visões inteiramente diferentes de política econômica.

Em comum, os dois países têm a opinião de que a negociação com Londres não deve ser acompanhada por espírito de vingança. Já levando em consideração o risco de grandes perdas financeiras, Paris e Berlim querem preservar relações harmoniosas com o vizinho.


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