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‘Temos que garantir que hospitais sejam protegidos’, diz chefe da MSF

RIO – Na tarde de hoje, o Conselho de Segurança da ONU se reúne em Nova York para votar a reafirmação de seus membros ao compromisso de proteger hospitais e agentes de saúde em zonas de conflito. A resolução elaborada por Nova Zelândia, Egito, Espanha, Japão e Uruguai será apresentada pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e por representantes da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Participam ainda da votação as cinco nações com cadeiras permanentes no Conselho de Segurança — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — além de Senegal, Malásia, Angola, Venezuela e Ucrânia.

A reunião acontece menos de uma semana após o ataque que destruiu o hospital al-Quds, em Aleppo, na Síria, alvejado por forças leais ao presidente Bashar al-Assad. O bombardeio — o mais recente numa série de ataques que incluem ainda o ataque ao hospital operado pela MSF em Kunduz, no Norte do Afeganistão, em outubro do ano passado, e a uma clínica da ONG horas após a ofensiva — não apenas deixou 50 mortos, como agravou ainda mais o cenário em uma cidade arrasada pela guerra, onde 250 mil civis se veem sitiados e quase sem qualquer acesso a ajuda humanitária ou médica.

Em entrevista ao GLOBO de Nova York, a presidente da MSF, Joanne Liu, falou sobre a necessidade de reafirmar a proteção a hospitais e profissionais de saúde em todo o mundo, e destacou a importância de uma larga mobilização internacional para evitar que os ataques a centros de saúde — 94 deles contra instalações operadas ou apoiadas pela MSF, somente em 2015 — continuem acontecendo.

O que podemos esperar da votação de hoje do Conselho de Segurança em termos de proteção aos profissionais de saúde?

Nossa principal preocupação é que os países reafirmem seu compromisso de proteger hospitais e missões médicas. Queremos garantir que hospitais que estejam operando e atendendo a população civil não sigam sendo alvejados, e queremos que aqueles por trás dos ataques possam ser responsabilizados por suas ações contra equipes médicas.

Que medidas efetivas o Conselho de Segurança pode tomar para garantir a segurança de médicos e hospitais?

O papel do Conselho de Segurança é proteger o mundo, então o que podemos esperar é que ele aja de acordo com essas premissa. Não há nada exatamente novo sendo apresentado aqui. Essas resoluções e regras já existem. O que faremos é apresentar uma descrição mais detalhada das operações de saúde e fazer uma conclamação maior para que o respeito às leis e ao trabalho humanitário seja mantido.

Além da destruição de instalações e da morte de profissionais, como os ataques a hospitais contribuem para o declínio das condições de vida nas áreas afetadas por conflitos?

Esse na verdade é o grande problema a ser combatido, e onde o maior impacto do conflito é sentido: a privação de assistência médica a milhares de pessoas. Os números nesse sentido não são exatos, mas algo em torno de 40 mil pessoas ficaram desprovidas de atendimento médico após os ataques em Aleppo, num cenário que vem se agravando desde o início do conflito. Os efeitos a longo prazo destes ataques são os mais devastadores possíveis para a população civil, que se vê em condições cada vez mais desoladoras e sem acesso a ajuda médica.

Os bombardeios a instalações e equipes médicas na Síria tiveram grande repercussão internacional. De que maneira a aprovação da resolução pelo Conselho de Segurança pode fortalecer a segurança a médicos em outras partes do mundo?

Os ataques em Aleppo e Kunduz foram mais noticiados, mas casos semelhantes acontecem no Iêmen e em locais como o Sudão do Sul, onde sofremos bombardeios em 2015. É por isso que essa resolução é tão importante. Temos que garantir que não somente os hospitais e as equipes médicas, mas também os pacientes sejam protegidos, onde quer que estejam.

Com o agravamento do conflito sírio e o aumento nos ataques a instalações médicas, é possível ter esperança de que esse cenário se reverta? Há luz no fim do túnel?

Começaremos com o pé direito se todos os países não apenas votarem favoravelmente à resolução, mas também se empenharem para evitar ataques e fazer com que os responsáveis respondam por essas transgressões. E é essencial a participação de todos os países, não apenas aqueles no Conselho de Segurança. O Brasil, por exemplo, seria de imensa ajuda e está hesitante quanto à questão, então é importante que essa mensagem seja transmitida e que alguma pressão possa ser feita sobre os governos para garantir que eles apoiem os termos da resolução.


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