Maduro chega à metade do mandato sem motivos para celebrar
RIO E CARACAS – Três anos depois de ser juramentado como presidente da Venezuela, Nicolás Maduro chega à metade do seu mandato sem ter o que comemorar. Com o país mergulhado em uma profunda crise econômica e energética, o chefe de Estado assiste a uma queda brusca de popularidade. Nos primeiros meses de 2016, o apoio popular ao mandatário caiu para 15%, após ter permanecido em 20% até o fim do ano passado, segundo pesquisas recentes. Aliada à crise — e consequência dela — a escassez de produtos básicos, como remédios e alimentos, contribui para aumentar as queixas de diversos estratos sociais — dos mais pobres aos mais ricos — sobre o atual governo. Outro fator de críticas apontado pelos venezuelanos ao sucessor de Hugo Chávez é a insegurança.
Com cada vez menos apoio, Maduro ainda atravessa uma grave crise política, capitaneada pela Assembleia Nacional, que tem maioria opositora pela primeira vez desde o início do chavismo em 1999. Com o lema “ninguém vai deter a mudança”, líderes opositores realizavam ontem um fórum público no Leste da capital, Caracas. Com 1.500 pontos em todo o país, eles recolhem assinaturas para reivindicar ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) que libere o caminho para um referendo revocatório do mandato de Maduro.
“Em nenhuma circunstância a pátria vai se entregar”, vem repetindo o presidente em várias oportunidades desde que a Mesa de Unidade Democrática (MUD) anunciou, no início de março, que ativaria todos os mecanismos constitucionais para forçar sua saída este ano.
A resposta formal do chavismo virou um slogan: “Aqui ninguém se rende” é o lema que começa a se popularizar entre simpatizantes do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV).
— O discurso pseudorrevolucionário faz gargarejo com palavras como “povo”, “pátria”, “revolução” e enlameia o socialismo — explica ao GLOBO Víctor Álvarez, pesquisador do Centro Internacional Miranda e ele próprio ex-ministro de Indústria e Mineração de Hugo Chávez. — É uma retórica anti-imperialista e anticapitalista com que justificam seus controles e expropriações e encobrem a fuga de capitais, a pilhagem e a corrupção.
Apelo ao chavismo e campanha midiática
A crise econômica, possivelmente a maior desde que o país começou a exportar petróleo ainda no início do século XX, pode causar uma ruptura política e social, o que levou o chefe de Estado a reivindicar uma estratégia para ganhar tempo. Maduro luta com uma base de apoio diminuída, mas ainda forte. E em meio a uma inflação em ascensão que, segundo economistas e organismos como o FMI, poderia terminar o ano em mais de 500% — números oficiais apontam para 180,9% em 2015 — o governo vem apelando ao sentimento chavista. E caso a votação pelo referendo sobre o mandato do presidente se materialize, ou se aprove uma emenda constitucional para reduzir seu mandato, o slogan pode se tornar centro da campanha do PSUV:
— Uma campanha com esse tom contribui para que os setores que apoiam o governo se mantenham coesos, mas é algo que não poderá ser permanente, nem atrairá novos seguidores — adverte o cientista político Justo Morao, especialista em campanhas eleitorais. — É uma característica do chavismo: adiantar-se a qualquer acontecimento.
Para analistas, isto justificaria a ação do governo para terminar o terceiro ano sem que aumentem os níveis de desaprovação, concentrando os poucos recursos disponíveis para satisfazer sua base de apoio. Há poucos dias, Maduro anunciou o cartão das Missões, que dará 14.500 bolívares (US$ 12) às famílias inscritas na Missão Casas da Pátria, para que comprem produtos nas redes públicas de alimentação; anunciou também cestas básicas que começarão a ser distribuídas a baixo custo para os que fazem parte dos conselhos comuns.
Assim como em seus dois primeiros anos, Maduro vem utilizando os meios de comunicação para ter presença permanente no dia a dia dos venezuelanos e, assim, difundir sua mensagem. Foram mais de 300 atos televisionados, acumulando 350 horas na TV. Nos discursos, destaca que a crise é produto da queda de preços do petróleo e do que chama de “guerra econômica” — os dois temas foram citados, respectivamente, 61% e 74% dos dias em que apareceu na TV estatal. Em 48% dos discursos, Maduro falou de lealdade e, em quase todos, lembrou de Hugo Chávez.
— O inimigo criado para fugir à responsabilidade é a “guerra econômica” e seus agentes, e não as políticas econômicas que estimulam a corrupção — diz Álvarez, que é economista.
Em 2015, a cruzada midiática custou aos cofres públicos 1,1 bilhão de bolívares (US$ 96,8 mil), segundo o Ministério de Comunicação e Informação. Apenas para transmissão e coordenação dos discursos presidenciais foram gastos 215 milhões de bolívares, mais de 700 mil bolívares por aparição — valor que ultrapassa 28 salários mínimos mensais.
Mas, mesmo controlando boa parte da máquina do Estado para difundir suas mensagens e neutralizar as ações da oposição, a crise econômica continua sendo um rival muito forte, que já derrotou o movimento recentemente — nas eleições parlamentares do ano passado — e ameaça tirar Maduro do poder. Quase nocauteado em 6 de dezembro de 2015, o presidente luta para se manter de pé no próximo assalto.
— As medidas anunciadas recentemente são apenas panos quentes que não resolverão os múltiplos desequilíbrios da economia. Junto com as reuniões que o governo vem fazendo com empresários, são uma forma de ganhar tempo e conseguir algum oxigênio para terminar o ano — alerta o economista Asdrúbal Oliveros, da Ecoanalítica.
Até agora, Maduro já anunciou na TV 32 estratégias ou mecanismos para enfrentar a crise, de acordo com um monitoramento feito pelo “El Nacional”. Destacam-se propostas como uma corporação que aglutine todas as empresas públicas ou a “Operação ataque ao caruncho” (em referência ao inseto, praga que destrói madeira e cereais) para acabar com a corrupção nas cadeias de distribuição do Estado.
— É preciso resolver o problema do deficit cambial, atacar a inflação e a escassez reativando o aparato produtivo, diminuir o tamanho do Estado com programa de privatizações e desenhar uma nova política social, que não deixe vulnerável um setor da população — prega Oliveros.
A oposição culpa o modelo socialista e a corrupção do governo para os elevados níveis de inflação, a mais alta do mundo:
— Queremos uma mudança de modelo para superar esta crise. Exigimos ao CNE que nos entregue as planilhas para recolher assinaturas (para o referendo). Temos que decidir ainda este ano se queremos continuar como estamos ou olhar para o futuro — disse o deputado opositor Miguel Pizarro.
O constitucionalista José Ignacio Hernández, no entanto, alerta que as intenções da oposição entrarão em choque com o poderoso Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), tachado de “escritório de advocacia” do governo pelo presidente do Parlamento, Henry Ramos Allup.
*O “El Nacional” faz parte do Grupo de Diários América.
Colaborou Marina Gonçalves.




