Crise no Irã: protestos entram na terceira semana e repressão deixa milhares de mortos e feridos; veja
Mundo – O Irã vive, neste momento, um dos momentos mais críticos de sua história recente. Protestos que começaram no final de dezembro de 2025, inicialmente motivados pela catastrófica desvalorização do rial e pela inflação galopante que supera os 40%, evoluíram para um movimento nacional de contestação aberta ao regime da República Islâmica. Com manifestações registradas em todas as 31 províncias do país e em centenas de cidades — de Teerã a Mashhad, Tabriz, Shiraz e Isfahan —, o povo iraniano grita por liberdade, pelo fim do governo clerical e, em muitos casos, pela restauração da monarquia sob Reza Pahlavi, filho do último xá.
No 16º dia consecutivo de atos (contando desde 28 de dezembro), o regime responde com mão de ferro. Organizações de direitos humanos como a HRANA (Human Rights Activists News Agency) e a Iran Human Rights reportam números alarmantes: mais de 500 mortos (incluindo manifestantes, crianças e até membros das forças de segurança), milhares de prisões (estimadas entre 10 mil e 11 mil, com relatos de detenções de menores) e um apagão quase total de internet e comunicações telefônicas imposto desde o início da semana. Hospitais em Teerã e outras capitais provinciais estariam sobrecarregados com feridos por tiros de bala real, balas de borracha e gás lacrimogêneo.
O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que governa o país desde 1989, classificou os manifestantes como “vândalos” e “terroristas” manipulados por Estados Unidos e Israel. Em discursos televisionados, ele prometeu não recuar: “A República Islâmica chegou ao poder pelo sangue de mártires e não cederá”. O presidente Masoud Pezeshkian, considerado reformista dentro do sistema, tenta um tom mais conciliatório — admitindo “preocupações legítimas” da população e prometendo diálogo —, mas simultaneamente culpa “agitadores externos” por incêndios em bazares, mesquitas e símbolos culturais. O governo convocou marchas pró-regime em várias cidades, com imagens de multidões leais exibidas na TV estatal.
A crise econômica é o estopim, mas as raízes são profundas: sanções internacionais reativadas (especialmente após o colapso do acordo nuclear), má gestão, corrupção endêmica e o enfraquecimento da influência regional do Irã. Ataques israelenses e americanos neutralizaram grupos aliados como Hamas e Hezbollah, danificaram seriamente o programa nuclear e culminaram na queda de Bashar al-Assad na Síria em dezembro de 2024. Esses reveses externos, somados ao trauma da repressão brutal aos protestos de 2022 (pela morte de Mahsa Amini), criaram um sentimento anti-regime “historicamente alto”, segundo analistas.
Do outro lado do Atlântico, o presidente Donald Trump acompanha de perto e não esconde o apoio. Em postagens nas redes sociais, ele escreveu: “O Irã está vislumbrando a LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!!!”. Trump ameaçou intervenção militar direta caso o regime “comece a matar manifestantes pacíficos”, afirmando que os militares americanos analisam “opções muito fortes”. Após ações recentes dos EUA na Venezuela (captura de Nicolás Maduro, aliado histórico de Teerã), as palavras ganham peso real. No entanto, especialistas alertam: sem deserções significativas nas elites ou nas forças de segurança (Guarda Revolucionária e Basij), uma intervenção externa pode ter efeito limitado e até fortalecer o regime internamente.
Enquanto o mundo observa com dificuldade — devido ao blackout de comunicações —, vídeos vazados mostram cenas dramáticas: carros em chamas, multidões cantando “Morte ao ditador” e “Vida longa ao xá”, jovens enfrentando tanques com coragem impressionante. O regime parece frágil, mas ainda coeso em sua brutalidade. Analistas como Holly Dagres (do Instituto de Washington) afirmam que “o sentimento não desaparecerá até que o regime caia”. Outros, como HA Hellyer (RUSI), destacam que o aparato repressivo permanece intacto.
O Irã está à beira de uma mudança profunda — ou de uma repressão ainda mais sangrenta. As próximas horas e dias serão decisivos. O povo iraniano, cansado de décadas de isolamento e sofrimento econômico, parece disposto a arriscar tudo. Resta saber se o regime conseguirá sobreviver mais uma vez à fúria das ruas.


