Argentina aprova acordo Mercosul-UE na Câmara e assume liderança no bloco sul-americano
Mundo – Em uma sessão que se estendeu até quase a meia-noite desta quinta-feira (12), a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), com 203 votos favoráveis, 42 contrários e 4 abstenções. Com isso, o país liderado por Javier Milei assume a dianteira no bloco sul-americano na corrida pela ratificação do tratado, negociado por mais de 25 anos e assinado em janeiro deste ano em Assunção, no Paraguai.
O acordo, que cria uma das maiores zonas de livre comércio do planeta — abrangendo cerca de 720 milhões de pessoas e aproximadamente 30% do PIB global —, elimina progressivamente tarifas sobre 91% das exportações europeias para o Mercosul e 92% das exportações do bloco para a UE ao longo de 15 anos. Para o governo argentino, o pacto representa um impulso significativo à economia, com aumento de exportações, atração de investimentos e maior competitividade em setores como agropecuária, indústria e serviços.
O presidente Javier Milei, que enviou o texto ao Congresso em 6 de fevereiro durante as sessões extraordinárias, celebrou a aprovação como uma vitória estratégica. “Este acordo traz inúmeros benefícios para a Argentina, abrindo mercados e fortalecendo nossa inserção global”, destacou o mandatário, que já havia sinalizado prioridade ao tema mesmo após críticas anteriores ao Mercosul.
Apesar das diferenças ideológicas entre os governos do bloco — que incluem o progressista Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Yamandú Orsi no Uruguai e Santiago Peña no Paraguai —, há consenso unânime em torno da importância do tratado. O Brasil enviou o acordo ao Congresso em 2 de fevereiro, com expectativa de votação na Câmara ainda em fevereiro, enquanto Uruguai e Paraguai também avançam em seus trâmites legislativos, com o Paraguai exercendo a presidência pro tempore do Mercosul.
A aprovação na Câmara argentina agora segue para o Senado, onde deve ser analisada a partir do dia 26 de fevereiro. Caso o Senado aprove o texto, a Argentina poderia se tornar o primeiro membro do bloco a ratificar integralmente o acordo, permitindo a aplicação provisória do tratado com a UE — mesmo sem a ratificação completa dos demais países sul-americanos.
Na Europa, porém, o caminho ainda é mais longo e incerto. O acordo enfrenta contestações judiciais e resistências no Parlamento Europeu, especialmente de setores agrícolas que temem concorrência desleal. O Tribunal de Justiça da UE analisa questões de conformidade, e a Comissão Europeia avalia a possibilidade de aplicação provisória de partes do pacto. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, já defendeu que a UE avance assim que pelo menos um parceiro do Mercosul ratifique o tratado.
Especialistas apontam que a liderança argentina pode pressionar os demais membros do Mercosul a acelerarem seus processos, transformando o bloco em uma plataforma mais atrativa para negociações globais. Se concretizado, o acordo Mercosul-UE marcará o fim de décadas de negociações e abrirá um “novo ciclo de oportunidades” para as economias sul-americanas, com foco em exportações de commodities, manufaturados e serviços.
Enquanto o Senado argentino se prepara para o debate, o foco agora se volta para Brasília, Montevidéu e Assunção, onde os legislativos acompanham de perto o ritmo imposto por Buenos Aires. O Mercosul parece, enfim, próximo de concretizar um dos acordos comerciais mais ambiciosos de sua história.


