Agricultores franceses bloqueiam acessos a Paris contra tratado comercial com o Mercosul
Mundo – O rugido dos motores de centenas de tratores voltou a ecoar pelas avenidas de Versalhes nesta semana. O que poderia ser apenas mais um protesto setorial transformou-se em um símbolo de resistência nacional na França contra a globalização dos mercados agrícolas. O alvo principal? O aguardado — e polêmico — acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.
Para o produtor rural médio na França, o tratado não representa apenas uma mudança tarifária, mas uma ameaça existencial. O argumento central dos sindicatos, como a FNSEA (Federação Nacional dos Sindicatos de Produtores Agrícolas), é a desigualdade de condições.
Enquanto a Europa impõe normas ambientais e sanitárias rigorosas — muitas vezes limitando o uso de pesticidas e exigindo rastreabilidade total —, os agricultores franceses alegam que o bloco sul-americano opera sob regras muito mais flexíveis.
“Não lutamos contra o comércio, lutamos contra a hipocrisia”, afirmou um manifestante em frente ao Palácio de Versalhes. “Como podemos competir com carne produzida a um custo que ignora as leis que nós somos obrigados a seguir?”
O presidente Emmanuel Macron encontra-se em uma posição diplomática delicada. Se por um lado ele precisa manter a liderança da França dentro da União Europeia — onde países como a Alemanha pressionam pela aprovação rápida do acordo para beneficiar a indústria automotiva e de tecnologia —, por outro, ele não pode ignorar a força política do campo.
O setor agrícola é um pilar da identidade francesa e uma base eleitoral volátil. Ceder ao Mercosul agora pode significar entregar o controle das zonas rurais para a oposição de extrema-direita, que tem capitalizado sobre o sentimento de abandono dos agricultores.
Os pontos mais sensíveis do tratado envolvem cotas de exportação que impactam diretamente o mercado europeu:
Carne Bovina: Previsão de entrada de milhares de toneladas com tarifas reduzidas.
Aves e Açúcar: Produtos em que o Brasil possui uma escala de produção que os produtores europeus não conseguem igualar.
Custos de Produção: Estimativas sugerem que o custo de produção na América do Sul pode ser até 30% inferior ao francês devido a diferenças em encargos e regulamentações.
Enquanto os tratores bloqueiam as vias de Paris e Versalhes, a Comissão Europeia tenta encontrar uma “cláusula de salvaguarda” ou espelhamento de normas que acalme os ânimos. No entanto, para os homens e mulheres que dirigem esses tratores, o tempo das promessas diplomáticas acabou.


