Caminhada da Virada Feminina do AM reúne multidão na Zona Leste de Manaus nos 20 anos da Lei Maria da Penha

Manaus – Na manhã desta sexta-feira (7), a Avenida Itaúba, localizada no bairro Jorge Teixeira, uma das vias mais populosas e movimentadas da zona Leste de Manaus, amanheceu tingida pelas cores da resistência. O local foi o palco da “Caminhada da Vida”, um evento de grande mobilização popular realizado em celebração a um marco histórico no país: os 20 anos da sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). A legislação, reconhecida internacionalmente, é o principal instrumento jurídico brasileiro na proteção e defesa dos direitos das mulheres contra a violência doméstica e familiar.
Sob o sol forte característico da capital amazonense, centenas de mulheres, lideranças comunitárias, ativistas e moradores locais marcharam segurando faixas, cartazes e balões. O tom da manifestação alternava entre a celebração das conquistas obtidas nas últimas duas décadas e o protesto contundente contra as lacunas que ainda permitem que milhares de mulheres percam suas vidas anualmente.
Vozes da Resistência
Nesse sentido, iniciativas como a Virada Feminina do Amazonas desempenham um papel fundamental, realizando atividades de conscientização que vão até os bairros periféricos para mobilizar a população em prol da vida feminina. Durante o evento, lideranças expressaram a urgência da causa.
Cileide Moussallem, Presidente da Virada Feminina do Amazonas, subiu ao carro de som para discursar. Para ela, a ocupação das ruas da zona Leste carrega um forte peso simbólico:

“A nossa caminhada hoje na Avenida Itaúba vai muito além de um simples ato comemorativo em defesa das mulheres. É um grito de socorro e, ao mesmo tempo, uma demonstração de força. Estamos aqui hoje para ser a voz, as pernas e o coração daquelas que foram covardemente silenciadas pela violência e pela opressão machista. Cada passo que damos nesta avenida representa uma mulher que, infelizmente, não pôde marchar conosco hoje. Nós não aceitamos mais virar estatística; nós exigimos o direito fundamental de viver com dignidade e em paz.”
A caminhada também contou com o apoio de organizações parceiras. Izabelle Fontenelle, uma das figuras principais do Movimento Avante Mulheres, juntou-se à mobilização na linha de frente. Ela fez questão de pontuar que a celebração da lei não pode mascarar as deficiências do sistema de proteção:

“Não basta lembrarmos da Lei Maria da Penha apenas no mês de agosto ou em datas de calendário. A violência de gênero não tira férias, não tem feriado e acontece dentro das casas todos os dias. A nossa luta no Movimento Avante Mulheres se dá diariamente. Precisamos que essa lei chegue, de fato, na ponta. Precisamos de delegacias funcionando 24 horas em todos os lugares, de acolhimento rápido e de uma mudança cultural que ensine aos homens que o corpo e a vida da mulher não são propriedade deles.”
A Dra Shádia Fraxe Líder do movimento Avante Mulheres e ex-secretária municipal de saúde enalteceu o movimento , e o destacou como importante para essa luta fundamental na sociedade

“A Lei Maria da Penha representa um marco na proteção das mulheres brasileiras. Ao longo desses 20 anos, tivemos avanços importantes, mas também percebemos que ainda existe um longo caminho para garantir que toda mulher tenha acesso à informação, à proteção e a uma rede de atendimento eficiente. Caminhadas como essa são fundamentais porque levam essa discussão para as ruas e mostram que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa ser uma responsabilidade de toda a sociedade.”
Mara Lima, vice-presidente da Virada Feminina do Amazonas , comentou que o movimento é um lembrete de que as mulheres nao estão sozinhas e precisam conhecer os seus direitos para romper qualquer ciclo de violência

“Essa caminhada representa a força e a união das mulheres do Amazonas. Estamos aqui para marcar os 20 anos da Lei Maria da Penha, mas principalmente para mostrar que a nossa luta continua. Cada mulher que está aqui representa tantas outras que ainda não conseguem falar, que sofrem violência dentro de casa ou que têm medo de procurar ajuda. A Virada Feminina quer justamente levar essa mensagem para as comunidades: a mulher não está sozinha e precisa conhecer os seus direitos para conseguir romper o ciclo da violência.”
A Dra Adriane Magalhães , advogada da mulher , comentou que a lei Maria Da Penha é um mecanismo fundamental para proteger as mulheres do Brasil, e que o desafio é fazer com que essa proteção chegue de fato as vítimas

“A Lei Maria da Penha trouxe mecanismos fundamentais para proteger as mulheres e responsabilizar os agressores. Mas, depois de 20 anos, o nosso desafio ainda é fazer com que essa proteção realmente chegue à mulher que está dentro de casa, muitas vezes com medo, dependência financeira ou emocional e sem saber quais caminhos seguir. Por isso, uma caminhada como essa também é um ato de informação. A mulher precisa saber que violência não é apenas agressão física, e que ela tem direitos e mecanismos legais para buscar proteção.”
Para a Pastora Aimée Castro Yamamoto, Autora de “A Mulher Que Não Precisa Provar Nada!” , a violência não atinge somente a integridade física da vítima mas principalmente o emocional, que muitas vezes é difícil de reparar , e o trabalho psicológico se faz importante neste momento.

“Quando uma mulher vive uma situação de violência, muitas vezes ela começa a acreditar nas palavras do agressor e passa a questionar o próprio valor. Ela acredita que precisa provar que é boa o suficiente, que precisa suportar determinada situação ou que não conseguirá seguir sozinha. E é justamente aí que precisamos trabalhar a consciência dessa mulher. Ela precisa entender que não precisa provar nada para ninguém. Ela tem direito a viver com dignidade, liberdade e segurança.”
A Dor Transformada em Luta Ativa
Um dos momentos mais emocionantes e marcantes da “Caminhada da Vida” foi o pronunciamento de Isabelly Aurora. Sua presença na mobilização trouxe o peso da realidade vivida pelas famílias destruídas pela violência. Isabelly tem uma trajetória pessoal que se conecta de forma profunda e trágica com a causa: recentemente, ela perdeu a própria mãe em um caso de feminicídio.
Transformando o luto em ativismo, hoje ela se posiciona ativamente contra esse crime bárbaro, usando sua história para encorajar outras vítimas a quebrarem o ciclo de abusos antes que seja tarde demais. Com a voz embargada, mas firme, ela deixou seu recado à multidão:

“Estar aqui hoje dói de uma forma que eu não consigo explicar, mas é exatamente essa dor que não me deixa ficar parada em casa. Eu perdi a minha mãe para o feminicídio. Ela foi arrancada de mim pela pessoa que dizia amá-la. Durante muito tempo, o medo dominou a situação. Hoje eu grito porque não quero que nenhuma outra filha tenha que chorar no túmulo de sua mãe por causa do machismo. Se você está sofrendo qualquer tipo de agressão em casa, seja verbal, psicológica ou física: por favor, denuncie. Você não está sozinha. O agressor conta com o seu silêncio, mas é a sua voz que vai salvar a sua vida.”
A manifestação encerrou-se no final da manhã, deixando uma mensagem clara: a Lei Maria da Penha é um escudo poderoso que completa duas décadas, mas a erradicação da violência contra a mulher exige que a sociedade inteira não solte as mãos daquelas que precisam de ajuda.
O Retrato de uma Epidemia de Violência
A necessidade de ir às ruas é justificada por estatísticas que não param de crescer. Atualmente, o Brasil enfrenta uma situação considerada alarmante por especialistas em segurança pública e direitos humanos. Dados do recém-lançado relatório Retratos do Feminicídio no Brasil 2026 revelam que, em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios em todo o território nacional. Esse número macabro representa um aumento de 4,7% em relação ao ano de 2024.
O cenário em 2026 não demonstra sinais de recuo. No período compreendido entre janeiro e março deste ano, ocorreram 399 casos de feminicídio confirmados, indicando um crescimento de 7,5% se comparado ao mesmo trimestre do ano passado. Traduzindo esses dados para o cotidiano, a realidade é brutal: uma mulher é assassinada a cada cinco horas no país, simplesmente pela sua condição de ser mulher.
Diante desses dados profundamente preocupantes, ativistas reforçam que cabe a toda a sociedade incluindo o Estado, a iniciativa privada e os cidadãos comuns atuar de forma intransigente contra a violência de gênero.
Mulheres em situação de violência ou testemunhas podem denunciar anonimamente através do telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou ligar para o 190 (Polícia Militar) em casos de emergência.

