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“Não era pra ser nota zero”: veja como seria a redação de Luis se ele tivesse utilizado uma linguagem simples na Fuvest

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“Não era pra ser nota zero”: veja como seria a redação de Luis se ele tivesse utilizado uma linguagem simples na Fuvest

Brasil – O caso do estudante Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, que tirou zero na redação da Fuvest 2026 ao tentar uma vaga em Direito na USP, levantou um debate fundamental para qualquer vestibulando: escrever bem é o mesmo que escrever difícil?

Ao entregar um texto repleto de termos como “grandiloquência condoreira” e “esvaziamento eudaimônico”, Luis tentou demonstrar erudição, mas acabou punido pela banca por não desenvolver o tema proposto: “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”.

Mas e se tirássemos a roupagem excessivamente formal e o “juridiquês” precoce do texto de Luis? O resultado revela o que estava escondido sob o vocabulário rebuscado.

Como ficaria a redação de Luis se a linguagem utilizada fosse simples ?

A busca por reconstruir o nosso eu interior (Texto Simplificado)

“Na literatura, especialmente na poesia condoreira, vemos expressões dramáticas de um sofrimento profundo e escondido. No livro “A Visão das Plantas”, Djaimilia de Almeida mostra como a história e a poesia se misturam para explicar os conflitos da nossa sociedade. Seguindo essa linha, o linguista Ferdinand de Saussure explica que o significado das palavras é moldado pelas regras impostas pela sociedade. Mas, como o mundo muda rápido, essas regras perdem a força. Assim, quando tentamos entender o que significa o perdão hoje, vemos que ele se tornou múltiplo: ele é condicionado e limitado por causa das pressões sociais (violência simbólica) ou pela lógica fria do sistema em que vivemos (tecnocracia).

Nesse cenário, os sentimentos individuais são esmagados pelas regras da sociedade. Como explica o sociólogo Pierre Bourdieu, nós absorvemos uma cultura de violência sem questionar, aceitando uma realidade opressiva sem conseguir reagir. Por causa disso, o perdão deixa de ser um dever moral universal. O perdão condicionado vira apenas uma forma de transferirmos a nossa própria frustração e o nosso vazio emocional para a outra pessoa.

Além disso, na nossa era tecnológica, a razão é usada apenas como ferramenta de lucro, transformando até a cultura em mercadoria. O filósofo Michael Sandel alerta que focar apenas no desenvolvimento econômico e na tecnologia faz com que a sociedade abandone o cuidado com as pessoas. Com isso, limitar o perdão acaba sendo uma tentativa de dar valor a indivíduos que são invisíveis para o sistema, já que o próprio ato de perdoar passou a ser tratado como uma troca comercial”.

Portanto, fica claro que a mente das pessoas hoje está fragmentada, e a forma como perdoamos é um reflexo direto disso. No fim, os grandes ideais românticos são sufocados pela tecnologia e pela opressão da sociedade, restando apenas um sofrimento silencioso que se manifesta de várias formas”.

Redação Original

Intentona pela Reconstituição da Interioridade (Original)

“Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão – significado – múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.

Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana – de Pierre Bourdieu – a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.

Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno – era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.

Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes”.

A clareza salvaria a nota do candidato?

Provavelmente sim. Quando retiramos a pesada “cortina de fumaça” do vocabulário excessivamente rebuscado, o que se revela não é um aluno fugindo do tema, mas sim um pensador com um domínio sociológico e filosófico surpreendentemente profundo e específico sobre a questão proposta.

Se o texto tivesse sido escrito com simplicidade, a banca da Fuvest teria se deparado com um projeto de texto brilhante, que foge totalmente do senso comum moralista ou religioso sobre o perdão. Ao invés disso, Luis construiu uma tese interdisciplinar altamente sofisticada.

Ao analisar o esqueleto de suas ideias em uma linguagem acessível, ficam evidentes os méritos de sua argumentação:

  1. A desconstrução linguística do perdão (Saussure): Em vez de tratar o perdão como um sentimento banal, Luis o analisa como um signo linguístico. Ele usa Saussure para argumentar brilhantemente que o perdão não tem um sentido universal fixo; seu significado sofre “limitações” e “condicionamentos” dependendo da coerção e das regras da sociedade em que ocorre.
  2. O perdão barrado pela estrutura social (Bourdieu): O candidato demonstra uma compreensão madura de que não podemos perdoar incondicionalmente porque estamos imersos em um ciclo de “violência simbólica”. Segundo a aplicação que ele faz de Bourdieu, a sociedade nos oprime e molda nosso comportamento, fazendo com que o perdão condicionado seja apenas um reflexo das relações de poder desiguais em que vivemos.
  3. A mercantilização das relações humanas (Sandel): A cartada final de Luis traz o tema para a modernidade. Ele utiliza Michael Sandel de forma cirúrgica para mostrar que, em uma era tecnológica e hipercapitalista, as relações humanas viraram mercadoria. O perdão se torna “limitado” porque passa a ser transacional: nós o condicionamos ao “valor social” e mercadológico de quem pede desculpas, invisibilizando aqueles que não têm poder.

A grande tragédia da redação de Luis não foi a falta de conteúdo ou fuga do tema, mas sim um erro de “codificação”, que possivelmente o corretor não tinha bagagem para analisar. Ele possuía uma tese genial e argumentos de autoridade perfeitamente costurados para provar que o perdão é condicionado pelas estruturas de poder, linguagem e capital. Se a linguagem tivesse servido como uma ponte em vez de um muro, essa redação teria plenas condições de figurar entre as melhores do ano.


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