MPF tenta barrar abate de 5 mil búfalos invasores na Amazônia

Brasil – O projeto piloto do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que visa o controle populacional de búfalos selvagens em Rondônia esbarrou em um obstáculo judicial nesta semana. O Ministério Público Federal (MPF) acionou a Justiça solicitando a suspensão imediata do abate dos animais invasores que vivem em três reservas ambientais na Amazônia.
O pedido do MPF joga luz sobre um problema ambiental complexo e histórico na região do Vale do Guaporé, onde mais de 5 mil búfalos asiáticos se reproduzem sem predadores naturais, ameaçando a fauna e flora nativas.
O abate, iniciado em meados de março, faz parte de um teste do ICMBio para erradicar cerca de 10% da população de búfalos (aproximadamente 500 animais) e subsidiar um plano definitivo de ação. No entanto, o MPF argumenta que o órgão ambiental iniciou as operações sem comunicar previamente a Justiça e sem apresentar o plano de controle de forma oficial.
Os principais pontos levantados pelo MPF incluem:
- Suspensão imediata: Paralisação dos abates na Reserva Biológica (Rebio) Guaporé, Reserva Extrativista (Resex) Pedras Negras e Reserva de Fauna (Refau) Pau D’Óleo.
- Consulta prévia: Exigência de que comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais afetadas sejam ouvidas antes de qualquer ação.
- Histórico judicial: O pedido faz parte de uma Ação Civil Pública de 2025 que obriga o Estado e o ICMBio a controlarem a praga invasora e pede uma indenização de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, valor que seria revertido em reflorestamento.
Em sua defesa, o ICMBio afirma que está, de fato, cumprindo a decisão judicial. Segundo o instituto, o abate atual é uma pesquisa em andamento desenhada estritamente para coletar os dados logísticos e biológicos que fundamentarão o Plano de Erradicação definitivo exigido pela Justiça.
Por que erradicar os búfalos? O impacto ambiental
A presença dos búfalos em Rondônia é herança de um projeto governamental fracassado de 1953, voltado para a pecuária comercial. Abandonados, os animais asiáticos se adaptaram a uma área isolada que é um verdadeiro ponto de encontro entre a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado.
Por pesarem mais de meia tonelada e andarem em filas indianas, os búfalos causam uma destruição imensa e acelerada:
Ameaça à fauna nativa: Eles invadem o território e destroem o alimento de espécies vulneráveis, como o cervo-do-pantanal, que está sendo expulso de seu habitat natural.
Alteração geológica: Suas trilhas criam canais artificiais que desviam a água dos campos naturalmente alagados.
Compactação do solo: O peso dos animais faz com que áreas ao redor de lagos afundem até um metro, matando árvores cujas raízes ficam expostas.
Como funciona o projeto piloto do ICMBio
Especialistas em meio ambiente são categóricos ao afirmar que o abate é a única alternativa viável atual. A região é de extremo isolamento, impossibilitando a retirada dos animais vivos. A carne também não pode ser doada ou consumida, pois os búfalos cresceram sem qualquer controle sanitário ao longo de décadas.
Para executar o controle, o ICMBio mobilizou dezenas de pessoas, incluindo atiradores especializados (controladores de fauna) armados com rifles. O projeto piloto visa:
- Testar a capacidade diária de abate e a eficiência operacional na selva.
- Avaliar rotas, logística de equipamentos e o comportamento do rebanho sob estresse.
- Permitir que pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir) coletem tecidos e sangue para mapear possíveis doenças infectocontagiosas no rebanho.
- Monitorar, através de amostras de água e câmeras escondidas, o impacto das carcaças no ecossistema local e na cadeia alimentar nativa.
Enquanto a Justiça avalia a petição do MPF na 2ª Vara Federal Cível e Criminal de Ji-Paraná, o delicado equilíbrio ambiental da Amazônia aguarda uma resolução: proteger as espécies endêmicas da destruição iminente ou garantir que todos os ritos legais e sociais sejam cumpridos antes de apertar o gatilho.








