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“Minha paciência morreu”: o grito de exaustão de Mariana, a mãe atípica julgada por todos e ajudada por ninguém; veja vídeo

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“Minha paciência morreu”: o grito de exaustão de Mariana, a mãe atípica julgada por todos e ajudada por ninguém; veja vídeo

Brasil – A maternidade é frequentemente romantizada pela sociedade, mas para Mariana, uma jovem de 22 anos moradora da Vila Marinésio, em Bacabal, no Maranhão, ela é uma batalha diária pela sobrevivência. Mãe de um menino de três anos diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3 e Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), Mariana vive no epicentro de um furacão estrutural: a falta de dinheiro, a ausência de políticas públicas, o abandono paterno e a hostilidade da própria família.

O caso ganhou os holofotes após vídeos de uma briga física entre Mariana, sua mãe e seu irmão circularem nas redes sociais. No entanto, por trás da gritaria e da confusão em uma rua de terra, esconde-se a dor crônica de uma mulher que foi empurrada para além do seu limite psicológico e físico.

A Sobrecarga

A rotina de Mariana é descrita por ela mesma como um “inferno”. O filho, em meio a crises intensas, apresenta comportamentos de extrema dificuldade, como espalhar fezes pela casa e pelas paredes. Sem rede de apoio, ela não tem tempo para o básico: “Cara, eu não tenho tempo nem de tomar um banho que esse menino não deixa”, relata.

A vulnerabilidade econômica agrava o quadro. A renda da casa resume-se a R$ 750 (provenientes de benefícios sociais) e R$ 300 que o pai da criança envia — segundo Mariana, apenas por medo de ser preso. Desse valor mensal, os gastos com medicamentos psiquiátricos essenciais para o menino, como Neozine e Risperidona, já consomem mais de cem reais. Até mesmo a água, um recurso básico, é um luxo na Vila Marinésio: Mariana precisa pagar R$ 10 mensais e puxar mais de 100 metros de mangueira para ter água em casa e conseguir limpar a sujeira diária.

A renúncia pessoal é a regra. Para custear o tratamento da severa anemia do filho, Mariana tomou um empréstimo no Bolsa Família e tomou uma atitude drástica que afeta diretamente sua autoestima: cortou o próprio cabelo, que descrevia como grande e lindo, para poder comprar os remédios. “Com 750 eu não posso comprar um shampoo, um creme, eu ando parecendo uma louca. […] Mas na boca de quem não presta, quem é bom nunca vale nada.”

O Tribunal Implacável da Sociedade e da Família

O maior algoz de Mariana, paradoxalmente, parece ser o julgamento alheio. A confusão gravada em vídeo expôs uma ferida profunda: a mãe e os irmãos de Mariana a acusam de maus-tratos e de não alimentar a criança. Mariana se defende, mostrando as notas fiscais das compras e explicando que o filho tem severas restrições e recusas alimentares, algo comum no TEA.

A jovem é taxativa ao dizer que não pode ceder a todas as vontades da criança apenas por ele ser autista, temendo pelo futuro do garoto em um mundo que não perdoa. “Quando ele crescer, o povo não vai hesitar em bater nele. […] O mundo não escolhe lugar pra bater, de jeito nenhum.”

O Conselho Tutelar tornou-se uma presença constante e intimidadora na vida da jovem. Denúncias anônimas e familiares — incluindo acusações de que ela teria problemas mentais — fazem com que ela viva sob constante escrutínio. Enquanto cobram uma casa limpa e um comportamento dócil, ninguém oferece ajuda concreta. “Tem gente pra me apontar, mas pra me ajudar não tem. De jeito nenhum”, desabafa.

O Sistema Falho e a Morte da Paciência

Onde o Estado e a rede de apoio familiar falham, sobra a solidão. O pai da criança, por determinação judicial, deveria levá-lo para terapias, mas se recusa. Mariana não possui um crachá de identificação de autismo para o filho e sofre preconceito na rua. Seu único meio de transporte é uma bicicleta com a corrente quebrada e os pneus murchos.

Questionada sobre qual mensagem deixaria para a população e para aqueles que a julgam, Mariana é crua e visceral, despindo-se do papel de “mãe guerreira” que a sociedade tenta impor para mascarar o abandono:

“A minha paciência morreu faz tempo. Eu não tenho mais paciência da pessoa estar no pé do meu ouvido e eu ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar calada não. Eu falo mesmo! […] Fogo no cu dos outros é refresco.”

A história de Mariana não é um caso isolado, mas um sintoma agudo de uma sociedade que exige perfeição das mães, abandona as mulheres pobres e vira o rosto para a deficiência. Ela não está se vitimizando; Mariana está lutando, com as poucas e rústicas armas que lhe restam, para manter a si mesma e a seus filhos vivos.


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