Aluno processa reitor da USP após tirar zero na redação da Fuvest por usar ‘palavras difíceis’; veja vídeo

Brasil – Escrever bem é sinônimo de escrever difícil? Para Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, a tentativa de impressionar a banca da Fuvest 2026 com um vocabulário extremamente rebuscado acabou custando sua vaga no curso de Direito da Universidade de São Paulo (USP) — e resultou em um imbróglio judicial.
O Caso: Mandado de Segurança contra a USP
Luis foi desclassificado do vestibular após receber nota zero na prova de redação. Inconformado e alegando ter recebido apenas um “e-mail genérico” de resposta da organização, o jovem acionou a Justiça. Com o auxílio de sua mãe, que é advogada, ele impetrou um mandado de segurança contra o reitor da USP exigindo uma justificativa detalhada para a anulação do texto.
A resposta da Fuvest, no entanto, é direta: o candidato fugiu do tema. A proposta exigia uma dissertação sobre a frase “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”. Segundo a instituição, a redação passou por mais de três avaliações cegas que não encontraram indícios suficientes de compreensão e desenvolvimento da temática.
“A Languidez do Sofrer Recôndito” e a Repercussão
Para entender o impasse, basta observar a complexidade da primeira frase do texto entregue pelo candidato:
“Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito.”
O jovem chegou a expor o caso no X (antigo Twitter), mas deletou as publicações após virar alvo de piadas e críticas pesadas sobre o seu léxico. Luis defende que textos focados no curso de Direito costumam ser densos e que sempre teve um estilo “não tão usual”, mas admite que a redação continha inconsistências e reclama da falta de um retorno claro da banca.
O Veredito dos Especialistas
Professores de cursinhos pré-vestibulares analisaram a redação e foram unânimes em concordar com a banca da Fuvest. Segundo eles, a nota zero foi justa pelos seguintes motivos técnicos:
- Falta de coesão com o tema: O texto virou uma “colagem” de pensadores (citando de Ferdinand de Saussure a Pierre Bourdieu) que não dialogam diretamente com a ideia do perdão.
- Estrutura incompreensível: As construções sintáticas ficaram tão confusas devido ao alto teor de formalidade que inviabilizaram a identificação de uma tese (opinião central).
- Erudição como ornamento: O excesso de citações serviu mais para exibir vocabulário do que para sustentar um argumento válido, prejudicando o traço de autoria exigido pela prova.
A lição que fica para os próximos vestibulares é clara: a verdadeira sofisticação na escrita não está em usar palavras difíceis para afastar o leitor, mas em usar as palavras certas para aproximá-lo da sua ideia.
Redação completa de Luis
Abaixo, veja a íntegra do texto:
Intentona pela Reconstituição da Interioridade (Original)
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão – significado – múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana – de Pierre Bourdieu – a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.
Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno – era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.
Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes.
Como ficaria a redação de Luis se a linguagem utilizada fosse simples ?
A busca por reconstruir o nosso eu interior (Texto Simplificado)
Na literatura, especialmente na poesia condoreira, vemos expressões dramáticas de um sofrimento profundo e escondido. No livro “A Visão das Plantas”, Djaimilia de Almeida mostra como a história e a poesia se misturam para explicar os conflitos da nossa sociedade. Seguindo essa linha, o linguista Ferdinand de Saussure explica que o significado das palavras é moldado pelas regras impostas pela sociedade. Mas, como o mundo muda rápido, essas regras perdem a força. Assim, quando tentamos entender o que significa o perdão hoje, vemos que ele se tornou múltiplo: ele é condicionado e limitado por causa das pressões sociais (violência simbólica) ou pela lógica fria do sistema em que vivemos (tecnocracia).
Nesse cenário, os sentimentos individuais são esmagados pelas regras da sociedade. Como explica o sociólogo Pierre Bourdieu, nós absorvemos uma cultura de violência sem questionar, aceitando uma realidade opressiva sem conseguir reagir. Por causa disso, o perdão deixa de ser um dever moral universal. O perdão condicionado vira apenas uma forma de transferirmos a nossa própria frustração e o nosso vazio emocional para a outra pessoa.
Além disso, na nossa era tecnológica, a razão é usada apenas como ferramenta de lucro, transformando até a cultura em mercadoria. O filósofo Michael Sandel alerta que focar apenas no desenvolvimento econômico e na tecnologia faz com que a sociedade abandone o cuidado com as pessoas. Com isso, limitar o perdão acaba sendo uma tentativa de dar valor a indivíduos que são invisíveis para o sistema, já que o próprio ato de perdoar passou a ser tratado como uma troca comercial.
Portanto, fica claro que a mente das pessoas hoje está fragmentada, e a forma como perdoamos é um reflexo direto disso. No fim, os grandes ideais românticos são sufocados pela tecnologia e pela opressão da sociedade, restando apenas um sofrimento silencioso que se manifesta de várias formas.







