Pena Capital: detentos que chocaram a Flórida ganham ‘passagem de ida’ para encontrar o ‘Tinhoso’

Mundo – A justiça tardou, mas chegou com peso duplo. Na última terça-feira, a Flórida marcou a história do sistema penal americano — e limpou seus corredores da morte — ao aplicar a pena máxima a dois criminosos no mesmo dia. Foi a primeira vez em quase uma década que os Estados Unidos assistiram a uma rodada dupla de execuções, enviando para o outro lado, com uma verdadeira ‘passagem de ida’ para encontrar o ‘Tinhoso’, figuras cujos crimes hediondos aterrorizaram a sociedade nas décadas passadas.
O governador republicano Ron DeSantis tem transformado a câmara de execução da Flórida na mais implacável do país, sob o lema de que “justiça tardia é justiça negada”. Com um ritmo que não se via desde 1964, o estado ignorou a tendência nacional de queda na aplicação da pena capital e já responde por mais da metade das execuções nos EUA neste ano.
O monstro de distintivo
O primeiro a embarcar nessa viagem definitiva foi James Aren Duckett, um ex-policial de 68 anos que usou sua farda para encobrir o mal absoluto. Em 1987, Duckett estuprou e afogou brutalmente a pequena Teresa McAbee, de apenas 11 anos, na região central da Flórida.
Sem demonstrar qualquer pingo de remorso no leito de morte, o ex-agente da lei recusou-se a fazer uma declaração final. Quando o diretor da prisão gritou seu nome com a injeção já em andamento, não houve resposta. Sua morte foi declarada às 13h19.
“Esperei quase 40 anos para vê-lo morto. Esse homem se aproveitou de seu distintivo.”
— Dorthy Tula (mãe da vítima) e Tracy Mcfall-Buskirk (prima), após a execução.
O octogenário assassino
Apenas algumas horas depois, às 18h, as cortinas se abriram novamente na Prisão Estadual da Flórida, perto de Starke. Dessa vez, para o octogenário Dominick Anthony Occhicone, de 80 anos, que teve seu encontro marcado com o destino. Condenado por assassinar a tiros os pais de sua ex-namorada em junho de 1986, Occhicone tornou-se o segundo detento mais velho da história dos Estados Unidos a receber a injeção letal.
Ao contrário de Duckett, Occhicone tentou um último e pífio perdão terreno. Com um conselheiro espiritual aos seus pés, agradeceu aos irmãos cristãos pelas visitas que recebeu ao longo dos anos e direcionou palavras à família que destruiu. “Sei que não significa muito, mas sinto muito. Nunca tive a intenção de fazer o que fiz”, declarou.
Mas palavras não apagam o sangue derramado. Às 18h02 a injeção letal tríplice (que inclui um sedativo, um paralisante e uma substância que cessa os batimentos cardíacos) começou a correr por suas veias. Após minutos de respiração pesada que foi cedendo ao silêncio absoluto, a morte foi declarada às 18h13.
“Os anos desde 10 de junho de 1986 foram repletos de noites sem dormir, cadeiras vazias em reuniões de família… O dia de hoje não apaga essa dor nem desfaz o mal causado, mas fecha uma porta e encerra um capítulo de nossas vidas que se prolongou por tempo demais.”
— Comunicado da família das vítimas Raymond e Martha Artzner.
A fila anda rápido na Flórida
A Suprema Corte dos EUA rejeitou os últimos recursos de ambos os assassinos, pavimentando o caminho para o dia fatídico. O panorama nacional mostra uma escalada nas punições capitais: de um total de 19 execuções nos EUA neste ano (até o final de julho), impressionantes 12 aconteceram apenas na Flórida — um número que ultrapassa todos os outros estados somados.
Com criminosos que mofam no corredor da morte desde a década de 1980, a atual administração acelerou o processo de forma implacável. Para Duckett e Occhicone, a longa espera e as apelações chegaram ao fim. A justiça dos homens encerrou seu papel, cedendo espaço de uma vez por todas ao julgamento que os aguardava do outro lado.

